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Fuga de Gaia

Uma pequenina mancha apareceu no céu, cientistas não sabiam de onde havia surgido e o que era aquilo. Aqueles que descobriram se deram ao trabalho de medir e calcular o deslocamento. Era uma massa escura, viajando rápido, a princípio muito longe. Porém, aquilo vinho em direção à Terra e se mantivesse o curso e velocidade, iria atingir nosso planeta dentro de 15 anos. Publicaram os estudos, receberam muita atenção na comunidade científica, e depois na mídia: estava decretado o fim do mundo. Morreríamos todos, atingidos por alguma coisa que ninguém sabia o que era.

5 anos depois, muitas vezes maior que seu tamanho quando observada pela primeira vez, Gaia, como foi apelidada a coisa que vinha, já começava a afetar o dia a dia dos seres humanos. Apesar de ser um objeto cosmicamente pequeno, Gaia perturbou o campo gravitacional de estrelas, corpos ermos e poeira galática. Inclusive a luz por sua volta já sofria distorções facilmente visíveis. Gaia já era observável a olho nu.

8 anos se passaram. Gaia é um tampão enorme no céu. Alterou os dias, fez o Sol desaparecer por longas horas. Em latitudes avançadas, mal se via a luz do dia. Além disso, Júpiter, apesar de maior, havia sido severamente deslocado, e sentia-se os efeitos em todo o tipo de equipamento na Terra. O equilíbrio no sistema solar tinha chego a um fim. A política humana estava um caos. Os países fecharam suas fronteiras. Cultos religiosos disputavam fieis a tiros, literalmente. A Terra havia se tornado o inferno. Poucos que residiam em países capazes de segurar suas populações com mãos fortes, ainda tentavam levar suas vidas, agora todas ainda mais sem sentido. As taxas de natalidade foram a quase zero, os crimes dispararam, as mortes por overdose superavam todas as outras causas como doenças do coração e acidentes de carro.

9 anos se foram. Já se sabia que Gaia era um volume massivo de matéria escura, que havia aparecido sem motivo no coração de uma galáxia distante, uma das maiores até então conhecidas. Estava pronta a primeira missão de colonização espacial. Os seres humanos ainda lutavam pela sobrevivência. Dezenas de foguetes iriam levar ao espaço as mais diversas combinações de populações e experimentos que, torciam todos, seriam a base para a vida no espaço. Os países mais ricos tinham duas frentes: se defender na guerra sangrenta generalizada entre as nações; cooperar e enviar tanta gente quanto possível no espaço, rumo ao completo desconhecido. Calculava-se que a janela para lançamentos acabaria dentro de mais 2 anos, aos 11 anos do descobrimento de Gaia, porque nesse ponto o objeto já estaria perto o suficiente para tirar a Terra da sua translação, e possivelmente nos lançar rumo ao nosso próprio Sol.

11 anos. Gaia cobre o céu. É impossível sobreviver a céu aberto por mais de duas horas sem roupa especial. A população humana foi reduzida a algumas dezenas de milhões de pessoas, todas escondidas sob bunkers profundos — a maioria talvez já tivesse morrido, pois o planeta tinha se tornado um corpo espacial instável, terremotos ocorriam em noventa por cento do dia, e quase todo o planeta era um inferno escaldado pelo sol, ou era uma completa nevasca que matava tudo. No total, haviam escapado da Terra cerca de 200 mil pessoas. Políticos de primeira linha, esportistas destacados, gênios, cientistas, bilionários e muitos militares que haviam controlado o planeta em sua derrocada.

Assim se deu a Fuga de Gaia. A espécie fora reduzida de sete bilhões para apenas 200 mil pessoas espalhadas em centenas de grandes naves espaciais, todas vagando sem destino.

A Nave Renascença

Roger Pastophoros fazia parte da equipe que partiu em uma das primeiras naves que decolaram da Terra, sem qualquer esperança de voltar, e com pouquíssimas chances de sobrevivência. A Renascença era um projeto antigo desenvolvido em conjunto entre Estados Unidos e União Soviética na década de 80, durante a Guerra Fria. Os líderes das duas potências sabiam da iminência de uma Guerra Nuclear, e decidiram sentar em uma mesa de negociações oculta. Nascia um projeto ambicioso: uma espaço nave que pudesse ser enviada para exploração espacial sem que jamais precisasse voltar ao planeta Terra. Era o plano dos líderes de ambos os lados, salvar as próprias peles no caso de que os mesmos decidissem acabar com o Planeta, paradoxal, mas compreensível.

Roger levantou do seu breve sono e antes mesmo de abrir os olhos por completo já estava no centro de comando da Renascença.

  • E hoje? Alguma coisa?
  • O mesmo de ontem, senhor. Completo e absoluto silêncio, retirando é claro, o zumbido ensurdecedor de Gaia.

Quem respondeu foi Caterina, chefe da ponte de controle. Nascida na Rússia, havia sido treinada desde pequena para missões espaciais, seu conhecimento agora parecia profético. Diferente de Roger que era apenas um soldado de alta patente do Exército Europeu, Caterina tinha status de gênio.

Observando pela pequena janela redonda, Roger desligou seus pensamentos e fixou os olhos em uma estrela muito brilhante distante no infinito. A contemplação só parou quando alguém o interrompeu, pedindo que ajudasse a carregar umas caixas até o laboratório. Suspirou e foi. Caterina parou por um instante o que fazia para observar Roger saindo pela porta automática, e sem qualquer mudança de expressão, voltou a conversar com o computador.

O último ser humano da Terra

Após todos os outros humanos terem morrido nos mais complexos e parafernalhados bunkers espalhados pelo Planeta, Xi Pin Mei ainda estava vivo. Desde que ouvira sobre o fim do mundo, escolheu sair do seu emprego numa linha de montagem de celulares de Shenzhen para seguir uma antiga lenda que seu avô lhe contava quando menino: havia uma caverna no interior da China, a maior de todas as cavernas do Planeta, que levava até outro mundo. Dois anos após a Primeira Observação de Gaia, Xi havia chego no local indicado por seu avô. Era uma cidade turística, com seus enormes conjuntos de cavernas, na base do Himalaia. Seguindo as palavras trêmulas que havia ouvido quando tinha 17 anos e seu avô estava no leito de morte, ele foi longe das cavernas conhecidas, por um caminho que não se percebia como explorado, a não ser por um ou outro dejeto largado no chão. Deu de encontro a uma caverna de entrada pequena, havia chego.

Caminhava e acampava, havia levado muita bateria de lanterna, querosene, comida enlatada. Calculava que seus recursos, se bem usados, lhe fariam viver os 10 anos de vida restante a todos. E viveu. 12 anos após o surgimento de Gaia, ele era o último homem vivo da Terra. Nem fazia ideia, até porque não tinha chego no final da caverna. Estava muito doente, o que lhe impossibilitava de seguir. Montou acampamento numa área grande, que tinha um pequeno lago de água potável, sob gigantescas estalactites que caíam uma vez ou outra, sob o chacoalhar fraco porém perene causado pelos terremotos. Xi tinha consigo apenas alguns livros, no momento em que a última vida humana se esvaiu do Planeta, lia Confúcio, lia uma frase que representava a glória daqueles que conseguiram levar a vida a diante, no espaço longe dalí: “Nossa maior glória não está em jamais cair, mas em levantar a cada queda”.

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