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Consultor e desenvolvedor de sites e apps em Curitiba, PR, Brasil

Sistema

Dona Adriana morava sozinha e todos os dias sofria de saudades do filho que fora viver na Europa. Havia quase três anos que ele se mudara em busca de uma vida melhor. Dona Adriana, viúva, ficou triste quando ele foi, teve um episódio grave de depressão. Ficou seca e enrugada igual uma uva passada. Um dia conversava no portão com sua vizinha, e aprendeu que poderia matar um pouco da saudade do filho de uma maneira mais conveniente:

– Por que a senhora não liga pela internet? Dá para ver ele por vídeo. Vocês se veem e conversam como se ele estivesse na sua sala. A senhora tem computador, né? A senhora tem internet?

– Ai minha filha, sabe que eu já sou velha. Não entendo destas coisas. Internet. Celular. Não é pra gente como eu. O computador só tenho porque é do Ricardo e ele não quis levar quando foi embora.

– Mas eu te ensino. Juro que a senhora vai gostar. É bem fácil. A senhora tem internet né?

– Não tenho minha filha. Ricardo tinha. Mandou desligar quando foi.

– Mas assim. Eu ajudo a senhora e instalamos internet e vai poder falar com seu filho sem gastar muito. Vai pagar só a mensalidade da internet.

Dona Adriana dava sinais que estava perdida na conversa. Sorria e balançava a cabeça concordando com tudo. Extremamente perdida. Porém encantada com a ideia de olhar o rosto do filho, nem que fosse pela tela do computador. A vizinha trabalhava em casa produzindo doces e salgados para festas de casamento. Sempre que sobrava um tempinho trazia uns mimos para Dona Adriana. Tinha saudade da sua própria mãe e tratar bem a vizinha aplacava um pouco essa saudade.

– Agora eu tenho que terminar uma entrega mas a tarde eu tenho um tempinho para ver isso com a senhora.

Cada uma se recolheu em sua casa para mais tarde encontrarem-se na sala de Dona Adriana. A vizinha com toda calma do mundo ligou para o atendimento da operadora de telecomunicação. Música. Espera. Uma voz gravada pedindo o número do documento. Para contratar um novo serviço, digite 1. Para receber a sua fatura, digite 3. Para manutenções já programadas, digite 5. Para outras opções, digite 0. Apertou o número um do telefone, um tom digital soou. Instantes se passaram. Agradecemos a sua ligação, aguarde mais um instante que já iremos lhe atender. Dizia a moça simpática da voz gravada. Mais espera.

Enquanto esperavam, Dona Adriana se levantou, foi até a cozinha, ligou o gás do forno, pegou a caixa de fósforos e então acendeu. Percebeu que a vizinha olhava em sua direção, sentiu vontade de explicar mesmo que aquela nem tivesse feito a pergunta.

– Estragou meu fogão. Só acende no fósforo. Vai um chazinho?

– Ah. Eu peço pro meu marido arrumar pra senhora. Ele arruma qualquer coisa! Eu aceito um chá, sim.

Atenderam a vizinha. Ela disse que queria ligar a internet na casa da Dona Adriana. Passou os números de documentos. Escolheu o plano mais baratinho. Mais espera. O sistema está lento, senhora, pedimos desculpas. Tudo bem, respondeu já impaciente naquela ligação que já se aproximava de dez minutos. Trocou o telefone de mãos, para a esquerda, porque a orelha direita já estava cansada. Já estou concluindo, senhora. Tudo bem, mais uma vez respondeu.

Dona Adriana depositou as duas xícaras de xá de camomila na mesa.

– É de camomila. Deixa bem calma. Eu tomo todos os dias para minha pressão alta.

– O cheiro está ótimo.

Pronto senhora, o procedimento está completo. A frase saiu do telefone para puxar a atenção da vizinha. Ok, ok. Mais alguma coisa em que eu possa ajudá-la, senhora? Nada não, respondeu.

– Olha só Dona Adriana. Eles vão vir aqui até sexta-feira para instalar para a senhora. Depois que eles virem eu ensino a senhora a falar pelo computador com seu filho. Está bem?

– Muito obrigado, minha filha. Agora tome seu chá antes que esfrie.

Passou o resto daquela quarta-feira e toda a quinta-feira. Na sexta-feira de manhã, Dona Adriana ouviu um barulho na frente da sua casa e foi curiosa até a janela, puxou a cortina e viu um homem dependurado no poste. Deve ser a internet, pensou.

Fez seu chá. Esperou na mesa. O homem tocou a campainha. Dona Adriana o recepcionou.

– Oi, meu filho.

– Vim instalar a internet para a senhora, posso entrar?

– Entre, está aberto, sem cadeado. Não tem cachorro.

O homem se aproximou da porta e pediu licença para entrar.

– Onde a senhora quer que eu coloque o modem?

– Ai, meu filho. O que que é isso? Eu não entendo nada de computador. Foi minha vizinha que pediu a internet para eu falar com meu filho. Meu filho foi morar na Europa, sabe. Eu falo com ele pelo telefone mas é caro para ligar todo dia. A vizinha me contou que pela internet é de graça.

Não vendo fim na explicação da senhorinha, o homem a interrompeu.

– Onde fica o computador? Eu coloco perto dele e tudo certo.

– Ah. Entre, entre. É lá na sala.

Foram pelo pequeno corredor que passava pela porta da cozinha, pelo corredor dos quartos e terminava na sala. O homem se pôs a arrancar tomada, puxar fios, cortar, remendar, pregar peças umas nas outras. Dona Adriana olhava, desconfiada.

– Cê quer um chá, meu filho?

– Não, senhora. Muito obrigado mas eu estou meio com pressa. Tenho muita instalação para fazer hoje.

O homem ligou o computador, fez um teste para se certificar que a internet estava ligada e funcionava.

– Pronto, senhora. Agora é só surfar na rede.

Dona Adriana não soube como responder. Só agradeceu e acompanhou com os olhos enquanto o homem juntava suas tralhas. Ele se foi e deixou o computador ligado. Dona Adriana nem sabia como desligar a máquina, que ficou lá, iluminando a sala escura – as cortinas viviam bem fechadas naquela casa.

Foi no final da tarde de sábado que a vizinha apareceu. Bateu palmas no portão e foi entrando, conhecida que era. Dona Adriana apareceu na porta.

– Ai minha filha, que bom que você veio. O homem deixou a internet ligada aqui. Eu nem desliguei porque eu não sei mexer nessas coisas.

Foram até a sala, onde o computador estava ligado. A vizinha puxou uma cadeira e sentou na frente do computador.

– Vou instalar um programa para a senhora falar com seu filho.

Dona Adriana ficou calada. Não sabia o que era instalar e não sabia o que era programa. Quando tentou imaginar o que era instalar um programa, sua mente perdeu o fio.

– Pronto. Até achei ele. Deixei o nome do Ricardo aqui, é só a senhora clicar. Venha ver.

Dona Adriana arrastou uma cadeira e sentou ao lado de sua vizinha. Estava com a atenção ligada no máximo. Queria muito aprender como fazer aquilo, se é que iria funcionar essa coisa de ver seu filho pela internet.

Então o rosto de Ricardo apareceu na tela. Dona Adriana sentiu um arrepio no corpo todo. Levou ambas as mãos a boca num gesto de incredulidade.

– Meu filho! Ricardo! Como você está, meu filho? – Quase gritava, como se fosse necessário falar muito alto para que a voz viajasse por toda a internet e chegasse lá do outro lado do mundo, na Europa.

– Oi, mãe! Que bom ver a senhora! Quer dizer que agora está conectada por aí, é? Que coisa boa!

A vizinha cumprimentou Ricardo, contou que havia ajudado a mãe dele com a instalação da internet. Ele agradeceu e disse que ficava realmente mais feliz em saber que sua mãe tinha uma vizinha tão querida com quem contar. Ela pediu licença e disse que voltaria a sua casa. Meu marido está me esperando, temos uma festa de criança para ir. Tchau, Ricardo. Até logo, Dona Adriana.

Sem tirar os olhos da tela, Dona Adriana se despediu da vizinha e voltou a falar com o filho. Falaram por meia hora. Se despediram e ela disse para ele ligar sempre que pudesse.

– O computador vai ficar ligado aqui para você me ligar a hora que quiser, meu filho. Eu te amo. E vê se se cuida que aí tem muito terrorista. Eu fico preocupada.

A ligação terminou. Dona Adriana foi até o fogão, ligou o gás, abriu a gaveta, pegou os fósforos, ligou o fogo, pôs a chaleira. Fez seu chá de camomila e sentou-se no sofá, mas olhando para o computador. Estava tão feliz com a novidade.

Meses se passaram. O medo de Dona Adriana com aquela máquina diminuiu na medida em que se sentia agradecida por poder ver o rosto do seu filho de quem tanto sentia saudades. A vizinha vinha pelo menos uma vez por semana e ensinou algumas coisas básicas. Dona Adriana aprendeu a desligar e ligar a máquina (mas ainda deixava ligada desde que acordava até a hora de dormir – Ricardo pode ligar a qualquer momento, ela pensava). Também aprendeu a ler as notícias, e pesquisar sobre sonhos e simpatias. Aos poucos se tornava mais íntima da tecnologia. A internet é uma maravilha, começava a pensar.

Julho chegou, e com ele a friaca do inverno. Dona Adriana tinha seu ritual ao acordar. Lavar a cara, esquentar água, fazer chá, comer um pedaço de cuca, e sentar na frente do computador para ler as notícias do dia. Mas nesse dia especialmente frio, quando clicou para abrir a página da internet, as coisas não apareceram como deveriam na sua tela.

Clicou novamente. Nada. De novo. Nada. Desistiu de insistir e viu no centro da tela alguma coisa escrita. O recurso buscado encontra-se inacessível ou sua conexão com a internet não está funcionando. O que será que é isso? Depois de uns minutos decifrou o texto: sua internet tinha parado de funcionar.

Imaginou que se tratava de algo passageiro. Levantou da cadeira e foi se ocupar com outras coisas. No fim da tarde voltou, fez o mesmo procedimento e a mesma mensagem aparecia. Lembrou do aparelho que o homem da internet havia instalado, estava no chão ao lado da mesinha em que ficava o computador. Olhou para ele. Ainda piscava. Quem sabe amanhã funcione, imaginou.

No outro dia, o mesmo problema. Clicou mais forte no mouse. Nada. Ficou irritada, mas o que poderia fazer? Desistiu de tentar e se deu conta que teria que esperar sua vizinha voltar de viagem para lhe ajudar com isso.

Dona Adriana passou aquela semana irritada. Estava acostumada a ver suas coisas na internet. No sábado ficou especialmente contrariada porque havia sonhado com um corvo muito grande e parrudo. O corvo grasnava num volume ensurdecedor. E atacava sua casa. Ela sentia muito medo. O que será que significa sonhar com corvo? Maldição de internet, praguejava.

A ela restava voltar para a televisão. No sábado a noite ligou para ver o jornal. Imagens de pessoas correndo, um incêndio. Aumentou o volume.

… o governo disse que vai prestar assistência às famílias das vítimas. O chefe da polícia local, em entrevista coletiva, informou que investigadores estão perseguindo algumas pistas deixadas pelos suspeitos dos ataques. Mais uma vez o medo toma conta de Paris, que se vê acuada diante de outro ataque pavoroso contra inocentes indefesos.

Dona Adriana de súbito sentiu seu coração palpitando forte. Ricardo. Ele está em Paris. Meu Ricardo. Meu Deus. Começou a chorar. Sentiu uma tontura. O remédio da pressão. Levantou se apoiando no que podia, no braço do sofá, na estante, na mesa. Finalmente chegou até a gaveta com o remédio, tomou duas pílulas. Se sentou na cadeira. Ricardo. Ricardo. Ricardo. O medo lhe apertava a garganta. Começou a chorar mais forte. Olhou em volta, cadê o telefone. Foi se apoiando até a mesa de centro na sala. Pegou o telefone sem fio. Olhava o papel colado na base do aparelho e discava os números. Errou duas vezes e ouvia uma voz automática dizendo que a ligação não poderia ser completada. Finalmente acertou. Mas a mesma mensagem. Discou novamente. A mesma mensagem. Então se lembrou que na última vez que havia falado com Ricardo pela internet ele disse ter perdido o telefone celular e que só poderia comprar outro no final do mês quando recebesse o salário.

Mais choro. Soluços. Dona Adriana ficou desesperada. Só conhecia sua vizinha que podia lhe ajudar, mas ela estava viajando. Sentou resignada no sofá e se pôs a acompanhar as notícias do atentado terrorista.

Dormiu ali mesmo no sofá, com a televisão ainda ligada. Um pastor gritava algo sobre um demônio. Ela acordou assustada. Sonhara com Ricardo, que a chamava e ela respondia mas sua voz não saia da sua boca. Ela tentava falar, gritar, e não conseguia. Se levantou e procurou o relógio da cozinha. Não chegava a marcar cinco da manhã. Fez seu chá, tomou seu remédio da pressão. Sentada na mesa, lhe veio a ideia de ligar para o homem da internet.

Procurou numa estante, depois na outra, e finalmente encontrou a caixinha que o homem havia deixado. Abriu e revirou os papéis em busca de um número. Num dos selos pode ler Atendimento ao Cliente. Discou aquele número.

Música.

Uma voz gravada pedindo o número do documento.

Dona Adriana não estava com seu documento em mãos. Então colocou o telefone sobre a mesa e foi até a gaveta da estante. Encontrou seus papéis e os trouxe para o sofá, depositando ao seu lado. Escolheu sua velha identidade. Pegou o telefone. Um tom de ocupado. A ligação havia caído.

Ligou novamente.

Música.

Uma voz gravada pedindo o número do documento.

Dona Adriana com o documento no seu colo, olhava para ele e digitava o número, olhava para ele e digitava o número, até completar todos os dígitos.

Documento inválido, por favor digite o número do seu documento.

Ela o fez novamente. E o resultado foi o mesmo. Documento inválido. E a ligação caiu.

– Não deve ser esse – Disse para si mesma.

Escolheu um cartão azul em que se podia ler “Cadastro de Pessoas Físicas”. Examinou e encontrou um número. Discou no telefone.

Música.

Uma voz gravada pedindo o número do documento.

Apertou número por número com muito cuidado para não errar.

Obrigado por ligar para a TT Telecom, sua ligação é muito importante para nós! Dizia a voz gravada.

Para contratar um novo serviço, digite 1. Para receber a sua fatura, digite 3. Para manutenções já programadas, digite 5. Para outras opções, digite 0.

E agora? O que fazer? Ficou confusa com as opções, não sabia qual deveria apertar. Escolheu o 0.

Para dicas de como usar o anti-vírus ultramax, digite 2. Para configuração do proxy para jogos, digite 5. Para suporte do serviço banda larga ultramax, digite 8. Para voltar ao menu principal, digite 0.

Dona Adriana começava a ficar nervosa em ser obrigada a lidar com aquilo. Não sabia o que tinha que apertar dessa vez. O que é anti-vírus? O que é proxy? O que é ultramax? O que é banda larga? Meu Deus como isso é difícil.

O atendimento automático repetiu as opções. Ela decidiu pela opção que falava suporte, parecia a mais próxima do que precisava. Você escolheu a opção suporte banda larga, certifique-se de ter feito o procedimento padrão antes de receber o atendimento da nossa central. Você deve desligar o modem da tomada, aguardar um minuto e só então religar na tomada. Depois basta testar se a internet voltou a funcionar. Música.

Dona Adriana ficou pensativa. Decidiu que tentaria isso. Desligou o telefone.

Foi até o modem e seguindo o fio que saia de trás dele, encontrou a tomada. Desligou. Contou até sessenta. Religou. As luzes reacenderam. Sentou-se na cadeira, e clicou para abrir a internet. Não funcionou.

– Merda – Uma irritada Dona Adriana praguejou.

Voltou para o telefone. Discou. Documento. Música. Sua ligação é blá blá blá para nós. Opções. Mais opções. Procedimento padrão. Todos os nossos consultores estão ocupados no momento, aguarde na linha que já vamos lhe atender.

Aguardou. O tempo ia passando. Um, cinco, vinte minutos. Sua irritação crescia. Sua pressão alta a preocupava. Olhou no telefone e constatou que já estava esperando por meia hora. Levantou e foi fazer seu chá, sem desgrudar a orelha do aparelho.

Quase quarenta minutos depois, uma voz humana quebrou o mantra da voz automática.

– Bom dia! Meu nome é Romilson, com quem eu falo?

– Oi, é Adriana.

– Em que posso ajudá-la, Adriana?

– Minha internet não está funcionando. Não consigo mais falar com meu filho. Eu tô nervosa meu filho, por favor me ajude. Eu preciso falar com meu filho.

– Tudo bem senhora, primeiro preciso saber qual é o número do seu documento.

– Peraí meu filho. Está lá no sofá eu vou olhar.

– Ok, senhora.

No minuto seguinte ela falou o número.

– Aguarde mais um momento enquanto verifico.

– Tá bom, meu filho.

Minutos passaram.

– Só mais um momento, senhora. O sistema está lento hoje.

Dona Adriana ouviu ele falar sistema e imaginou que era o nome de algum outro funcionário do local. Já estava sem paciência. Lembrou do filho, sentiu um arrepio.

– Senhora, estou verificando e está tudo certo com sua internet.

– Mas não está funcionando, meu filho. Como está certo, se não está funcionando? Por que eu ia te ligar, meu filho?

– Calma, senhora. É o que o sistema diz. Internet operante. A senhora já realizou o procedimento padrão de desligar e ligar o modem?

– Eu quero falar com esse sistema, manda ele vir aqui em casa ver se pega a internet, meu filho. Não está pegando. Já desliguei sim. Liguei e está lá piscando mas não funciona.

– Senhora. O que eu posso fazer é agendar uma visita com do técnico em sua casa.

– Tá bom, meu filho. Faça isso.

– Aguarde um momento enquanto verifico a agenda dos técnicos, senhora.

Minutos se passaram.

– Aguarde mais um momento, senhora. O sistema está lento hoje. Pedimos desculpas.

Mais minutos foram.

– Temos um horário disponível para semana que vem, na quinta-feira, na parte da manhã. Vou marcar para a senhora, tudo bem?

– Eu não posso esperar tudo isso. Meu deus. Eu preciso falar com meu filho. Veja bem, meu filho perdeu o celular dele. Ele mora na Europa e só consigo falar com ele pela minha internet. Por favor, me ajude.

– Senhora, não há nada que eu possa fazer. Somente agendar a visita do técnico.

As lágrimas rolavam no canto dos olhos de Dona Adriana. Ela tremia de nervos. Não conseguiria ter notícias do filho. O grasnado do corvo passou pela sua mente. Sentiu um aperto no coração.

– Agenda para mim, então, meu filho. Se é só isso que você pode fazer por uma senhora idosa que está sofrendo.

– Senhora, me desculpe. Eu só estou fazendo meu trabalho. Vou agendar para a senhora.

– Eu estou nervosa, eu não sei se meu filho está bem – O choro agora afetava sua voz.

– Só mais um momento senhora. O sistema está travado.

Então a ligação caiu. Dona Adriana demorou quase três minutos para se dar conta disso. Quando percebeu, desligou o telefone, o colocou na mesinha, e desabou no sofá, nervosa e chorando.

Acordou várias horas depois. Sentiu uma fisgada na costas. Havia dormido de qualquer jeito no sofá. Seu corpo já não aceitava bem quando isso acontecia. Levantou se escorando onde podia. Foi até a gaveta dos remédios e tomou dois analgésicos. A dor nas costas era imensa. Mas logo lhe veio Ricardo na mente e essa outra dor era pior. Não tinha notícias do filho. Lembrou do sonho com o corvo. Bicho maldito, o que será que significa? E o meu Ricardo. Meu Deus. E novamente chorou.


Catarina entrou no prédio correndo, estava alguns minutos atrasada. Já tinham lhe chamado a atenção e a próxima vez poderia ser demitida por justa causa. Tirou uma alça e jogou a mochila na frente do peito. Abriu o zíper. Pegou seu crachá. Passou na roleta e entrou no corredor que levava até seu posto de trabalho.

Todos os dias sua rotina era parecida. Acordava às cinco e meia da manhã e seguia para a feira – cada dia em um lugar diferente da cidade. Ajudava os pais feirantes a montar e vender as frutas e legumes até às onze horas. Dali, pegava um ônibus para seu trabalho numa central de atendimento. Devia entrar meio dia em ponto, mas dependia do local em que tinha sido a feira. As vezes atrasava. Almoço? Levava uma marmita, que esquentava logo antes de sair da barraca da feira, comia no ônibus sob olhares de reprovação. Trabalhava durantes seis horas com dois descansos de pouco mais de dez minutos cada. Às dezoito horas, corria novamente para pegar o ônibus, às dezenove começava sua aula no curso de Assistente Social. Era estressante. Era difícil. Mas faria qualquer coisa por seu sonho. Estava disposta a sofrer essa rotina destruidora para ter como pagar a mensalidade. Tudo para que um dia pudesse ajudar quem mais precisa. Iria valer a pena.

O trabalho na central de atendimento era extenuante. Tinha que chegar, sentar e atender ligações. Uma atrás da outra. Dezenas. Só não chegava na casa das centenas porque o aparelho de trabalho era velho e lento. Tinha um supervisor nojento que passava caminhando atrás dela de vez em quando. Já havia notado que ele olhava e encarava sem qualquer pudor qualquer uma das mulheres que se vestisse com um mínimo decote ou uma roupa mais apertada. Nojentão era o apelido dele entre elas.

Mas o chefe verdadeiro era aquele que se apresentava na tela a sua frente, o sistema. As ligações entravam pelo sistema, que tudo ouvia e tudo iria se lembrar. O que ela teria que dizer era descrito pelo sistema. Suas opções, limitadas pelo sistema. Deus do antigo testamento tinha menos poderes sobre um ser humano do que o sistema tinha sobre aqueles pobres funcionários da central de atendimento.

Primeira ligação. Segunda. Terceira. O dia começou e as habituais baixarias também. Ligava gente que não sabia em que planeta estava, dúvidas totalmente fora de contexto. Pior ainda eram os pervertidos que queriam ouvir uma voz feminina enquanto praticavam nojeiras. De vez em quando alguém normal, que falava em tom normal, mantinha um diálogo que fazia sentido. Porém, nesses casos, tanto ela quanto a pessoa enfrentavam outro problema, o sistema. A ela só restava pedir calma, tentar explicar. Do outro lado, mesmo a mais calma das pessoas não se aguentava. Então vai tomar no cu, e desligavam. Doía muito, ela não tinha qualquer controle sobre a situação. Era comum que seus intervalos de dez minutos fossem sessões de choro.

Não foi diferente quando recebeu uma ligação de uma senhora chamada Adriana Santana.

– Bom dia. Com quem eu falo? Em que posso ajudar? – disse Catarina.

– Oi, minha filha. Aqui quem está falando é Adriana. É o seguinte. Eu já liguei umas cinco vezes aí e ninguém resolve o meu problema. É que eu estou sem internet e eu preciso de internet para falar com o meu filho…

– Tudo bem, senhora eu vou verifi…. – Foi cortada pela voz de Adriana, que continuava a falar e falar.

– …ele perdeu o telefone e não mora aqui. Ele mora na Europa. Ele foi para trabalhar lá e está sem telefone e não consigo falar com ele. A minha vizinha, que é uma querida, me ajudou a instalar a internet de vocês aqui em casa e eu conseguia falar com o Ricardo no computador – A voz embargava ao lembrar do filho.

– Senhora, vou verificar para a senhora, só preciso….

– …desculpe eu estou chorando de novo. Eu só choro desde que eu vi na televisão. Não sei se você viu. Teve um atentado. Morreu muita gente. É na cidade do meu filho. Eu estou sentindo um aperto no coração, eu estou sofrendo muito. Por favor, me ajude.

– Senhora. Vou te ajudar. Preciso do número do seu documento para dar entrada no sistema.

Dona Adriana respirou fundo e entregou os números.

– Ok. Acessei o cadastro. Parece que está tudo normal. A senhora já tentou….

– Sim, minha filha, eu já desliguei e liguei várias vezes. Não funciona.

– Então vamos agendar um técnico para ir na casa da senhora. Tudo bem? Vou ver se consigo um encaixe para não demorar. Estou abrindo a agenda. Só um minuto por favor.

Dona Adriana tremia. Tinha dor nas costas. Dor de cabeça. Tremia. Lembrava de Ricardo e todas as dores eram multiplicadas. Enquanto esperava em silêncio ao telefone sentia o coração pulsando. Um bate, bate, bate desesperado. Como se a cada pulso a vontade do coração fosse de explodir.

– Senhora. Temos um espaço para amanhã a tarde. Vou agendar para a senhora, tudo bem?

– Tudo, minha filha. Muito obrigado.

E desatou a chorar com soluços agudos. Cataria ouvia. Era a última ligação do seu turno e seu coração se apertou. Estava acostumada a sofrer ataques gratuitos por aquele telefone. Aguentava – pelo menos até chegar na pausa do choro. Mas ouvir aquela senhora, imaginar o desespero dela, era insuportável. Começou a chorar baixinho, colocou seu microfone no mudo. Depois de alguns segundos respirou fundo antes de voltar a falar.

– Senhora. Vai ficar tudo bem, tá?

Então as duas choraram juntas. Uma ouviu o choro da outra. Se compadeciam. O sofrimento humano é processado no interior dos corpos, mas ele vive fora deles. O sofrimento de Dona Adriana de algum modo se convertia em sinais que viajavam da sua casa e chegavam na central de atendimento. Cataria era aberta ao sofrimento alheio, e absorvia. Absorvia e sofria junto com Dona Adriana.

– Você é um anjo. Eu quero que você venha aqui em casa um dia que eu te faço um chá e a gente conversa. Aliás, acho que vou fazer um agora para tentar me acalmar.

Um grito generalizado na central de atendimento fez Catarina colocar o microfone no mudo novamente. Ergueu a cabeça e entendeu. O sistema havia travado pela terceira vez naquele dia. Na sua frente os dados de Adriana ainda estavam lá, mas tudo congelado. Não pode ajudar.

– Senhora? Meu sistema travou. Não consegui realizar o agendamento. A senhora terá que ligar novamente depois.

Nenhuma resposta veio do outro lado.

Catarina esperou um pouco antes de desligar. Seu turno estava a cinco minutos do final. O endereço de Adriana ainda na tela. Lembrou das últimas palavras que ela havia lhe dito. Puxou a caneta que tinha no bolso graças ao trabalho na feira, e anotou na palma da mão o endereço.

Saiu do prédio mas não se dirigiu ao ponto de ônibus como todos os dias. Ligou para o namorado.

– O que você está fazendo agora?

– Oi amor, estou saindo do trabalho, indo para casa. Por quê?

– Pode vir me buscar? Eu preciso ir num lugar. Você me leva?

– Ué. Não vai para a aula hoje?

– Não. Tenho uma coisa mais importante para fazer.

Em quinze minutos seu namorado chegou. Ela entrou no carro.

– Nossa. Que cara é essa? O que aconteceu? – Perguntou ele.

– Recebi uma ligação hoje. Uma senhorinha. Ela está desesperada. O filho mora em Paris e teve um atentado lá. Só que o único contato dos dois é pela internet e adivinha, a dela parou de funcionar. Eu falei que ia resolver isso para ela, o sistema travou. Quero ir para lá agora.

– Mas…não é proibido você pegar o endereço de cliente?

– É. E só consegui pegar porque o sistema estava travado. Ainda com o endereço dela na minha frente. O endereço é esse.

– Sei onde fica. É perto. Você tem certeza disso?

– Se eu tenho certeza? O sentido da minha vida é ajudar os outros. Você sabe disso. Essa mulher está sofrendo. Eu senti isso. Senti muito forte aqui dentro. Você não entende.

– Calma. Calma. A gente vai.

Chegaram até a rua. Passaram devagar pelas casas até encontrar o número trezentos e vinte e cinco.

– É aqui – Disse ela.

Estacionaram na calçada e desceram. Foram até o portão. Apertaram a campainha. Esperaram um pouco e ninguém apareceu.

– Estou com um pressentimento ruim. Vou entrar. Olha, está sem cadeado no portão.

– Está maluca? Já viemos até aqui, chamamos, não tem ninguém. Você quer invadir a casa da pessoa?

– Então fica aí fora, eu vou entrar.

– Ah, não vou te deixar fazer isso sozinha.

Catarina abriu o portão e entrou, caminhou pela calçada em direção a porta da entrada. Bateu.

– Adriana? Adriana?

Ninguém apareceu. Ela meteu a mão na fechadura. Seu namorado estava visivelmente nervoso. Ela estava decidida. A porta estava destrancada. No momento em que empurrou a porta sentiu um cheiro forte.

– É gás! Meu deus.

Seu namorado procurou o interruptor de luz e levou um tapa de Catarina. Então ela colocou a manga da sua blusa no seu rosto e entrou na casa escura. O namorado foi atrás dela. Chegaram na primeira porta e viram uma senhora idosa desmaiada no chão, uma caixa de fósforos aberta com fósforos espalhados pelo chão. E uma chaleira ao lado do fogão.

Ambos se olharam e rapidamente correram para ajudar Dona Adriana. Começaram a puxar ela pela cozinha e então ouviram um barulho.

– Dona Adriana? A senhora está aí?

A vizinha acabara de chegar de viagem, e logo que virou a esquina viu aquelas pessoas estranhas entrando na casa de Dona Adriana. Saiu do carro antes de entrar na sua garagem e foi lá ver quem eram.

Ela deu um passo para dentro da porta, um cheiro forte de gás. Então viu dois vultos no corredor, na altura da porta da cozinha. Precisava ver quem eram. Acionou o interruptor de luz.

Uma fagulha mínima entre o bocal e a lampada mal instalada foi suficiente para causar a explosão. Os corpos de Catarina e do namorado foram arremessados quase até a entrada da sala. O de Dona Adriana ficou esticado na porta da cozinha. Os três morreram instantaneamente com o impacto e com estilhaços dos balcões e do metal do fogão.

A vizinha foi arremessada até o muro da casa, quebrou duas costelas.

Os bombeiros chegaram e rapidamente controlaram o pequeno incêndio na cozinha. Deixaram os corpos esticados lá para o trabalho dos peritos. Estes chegaram quase uma hora depois da explosão e começaram a marcar os pontos de interesse e imaginar como se deu tudo ali. Havia o depoimento da vizinha, sobre pessoas estranhas. Mas essas duas pessoas também estavam mortas no final do corredor.

– Olha isso aqui – A perito puxava um objeto debaixo da estante e segurava dependurado, chamando o policial para ver.

O policial se aproximou do celular de Catarina. A tela estava quebrada e piscava indo e voltando entre alguns aplicativos. Por um momento foi possível ver uma página da internet que estava aberta no aparelho. O policial forçou a vista para ler.

Sonhar com Corvo significa que você irá ajudar ou será ajudada por alguém. Quanto mais alto o grasnado do pássaro, maior é a urgência da situação. Em outros casos….(o resto da tela estava ilegível).

– Corvo?

A perito de de ombros.

O policial então deu alguns passos. Se conteve antes de sair pela porta, virou em direção a perito.

– Será que demora?

– Demora sim, isso aqui está uma bagunça. Temos esses dois estranhos, segundo a vizinha. É bom catalogar tudinho.

– Ah, tá bem. É que eu preciso passar tudo para o sistema. E meu turno acaba daqui meia hora.

– Melhor avisar sua mulher que hoje você vai se atrasar.

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