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Trump personificado em um livro de 1952. Descubra como e porquê

Ele é um fenômeno tão raro numa confluência de infinitas variáveis capaz de perturbar o caminho da História. Aberração nascida da chance, consegue manipular os sentimentos humanos, poderoso a ponto de tomar o controle do Império.

Esta é uma descrição do Mulo, personagem do segundo livro da trilogia Fundação, de Isaac Asimov. Mas pode ser também de Donald Trump.

Spoiler Alert. Este texto contém informações sobre a trama da obra Fundação. Se você ainda não leu e pretende manter a surpresa quando o fizer, não prossiga. Se já leu ou não vê problemas em saber o que acontece, boa leitura.


Fundação, de Isaac Asimov

Isaac Asimov foi um brilhante divulgador da ciência e escritor de ficção científica. Escreveu ou editou mais de 500 livros durante sua vida. Era um homem tão a frente do seu tempo que previu em 1964 algumas tecnologias que estaríamos usando em 2014. Sua obra de maior sucesso foi a trilogia Fundação.

Fundação é a história de um Império Galático em seu ápice, sendo assim, no início de seu declínio. O ser humano se espalhou por toda a galáxia e já sequer lembra a localização ou o nome do seu planeta de origem. Na capital, Trantor, um planeta coberto por apenas uma cidade com 45 bilhões de habitantes, o matemático Hari Seldon criou a psico-história — ciência que une estatística e psicologia — para prever o comportamento das massas.

Prevendo um declínio rápido e um período de “trevas” de 30 mil anos na Galáxia, Seldon elaborou um Plano para muitas gerações futuras. Com este Plano, iria manter o conhecimento científico do Império, reduzindo o caos para apenas mil anos, antes do re-surgimento do novo Império Galático. Algo próximo do trabalho realizado pelos monges irlandeses durante a Idade Média.

Estados Unidos em declínio

São vários os autores que juntam os fatos e montam a história do início do declínio dos Estados Unidos da América como Império dominante. Talvez um dos mais icônicos seja Noam Chomsky, que posiciona o Império como despreparado para uma nova ordem mundial em que tem de lidar com outros atores sem a supremacia extrema que detinha até alguns anos.

O historiador brasileiro Moniz Bandeira é outro. Segundo ele, o próprio monstro financeiro criado pelo Império Americano é insustentável, e isso vai devorar seu poder com imensa rapidez.

As Variáveis

No universo da Fundação, o trabalho da psico-história pode prever o declínio para evitá-lo. Porém, em determinado ponto da História, surge um ser imprevisível, o Mulo. Seu simples poder de mutante lhe permite alterar os sentimentos humanos. E com isso ele consegue impor seus desejos até atingir o ponto máximo de controlar parte da Galáxia.

É neste contexto que o Plano de Seldon corre perigo. O que era impossível, aconteceu, a História foi comprometida por um único ser.

Donald Trump é tão único quanto o Mulo. Segundo o New Republic:

“Do ponto de vista da elite Republicana, é fácil ver Trump como o Mulo: Ele é inesperado, ele atrapalhou os planos de coroar Jeb Bush, mas ele também é alguém que não tem como deixar um legado porque suas características fazem com que ele não seja replicável. Não existem tantos bilionários estrelas de reality show interessados em assumir um partido político.”

Manipulador de emoções

Na série de Asimov, o Mulo cantava e através do seu jogo musical e de palavras induzia que as pessoas sentissem pena dele. Convertia seus piores inimigos em seus mais dedicados servos.

O Mulo
O poder de Trump é semelhante ao do Mulo porque ele manipula a emoção de dezenas de milhões de estadunidenses frustrados com a “democracia” que não lhes traz uma vida melhor.A manipulação emocional de Trump fica clara quando se faz uma análise de seus discursos. A repetição de palavras, a forma como ele pontua termos específicos, frases curtas, expressões simples. O nível de leitura necessário para entender a linguagem de Trump é de alguém que fez a 4ª série, enquanto que para entender Hillary Clinton, se faz necessário ter pelo menos a 8ª série, ou ter o equivalente ao ensino médio para compreender Bernie Sanders.

O Palhaço

Quando o Mulo aparece pela primeira vez, ele é um palhaço de nome “Magnífico Giganticus”. Curvado, magérrimo e de nariz prolongado, uma aparência repulsiva. Então ele consegue o carinho e obediência através do seu poder de manipulação emocional.

Trump, por sua vez, lembra de imediato o estereótipo de palhaço. Sua aparência é combustível para todo tipo de piadas e imitações. Ele próprio utiliza o sarcasmo como uma ferramenta para atacar adversários e se posicionar no imaginário dos seus eleitores como alguém poderoso. Faz com que acreditem que ele é um empresário de tremendo sucesso — uma inverdade — e que irá gerir o país da mesma forma.

“Irreverente”

Contexto

Inclusive, quando se trata de traçar este paralelo do Mulo com Trump, o contexto histórico salta aos olhos. Na obra, a Fundação é uma colônia científica assentada num canto longínquo da Galáxia. E durante centenas de anos, enquanto o inevitável declínio do Império acontecia, a Fundação perseverava em muitos desafios com a ajuda da sua tecnologia, notadamente nuclear. Exatamente como os Estados Unidos, mantendo sua força por meio de suas armas.

Segunda Fundação

Como derrotar o Mulo?

“A outra ponta do final de uma espiral é o seu centro” — Fundação, Asimov

Bem, é realmente estraga prazeres contar isso para quem ainda não leu Fundação. Mas vamos lá. Existe uma Segunda Fundação e esta não trata de estudar a tecnologia e preservá-la. A Segunda Fundação estuda a mente humana, e assim, tem as habilidades necessárias para ajudar na luta contra o Mulo.

No entanto, em toda a história jamais se soube da Segunda Fundação. Nem sua localização. Somente quando tudo se resolve é que Asimov nos mostra que a solução sempre esteve muito mais clara e próxima do que se imaginava.

Quanto a Donald Trump podemos ter a mesma esperança. Que exista alguém trabalhando para evitar o pior. Evitar que um nacionalista sem pé nem cabeça tenha controle do maior arsenal nuclear do planeta. Caso contrário temos que recorrer a Seldon e seu Plano, para reduzir o máximo possível a nossa segunda Idade Média.

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