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Vozes de Tchernóbil (Companhia das Letras – 2016)

Os livros de Svetlana Aleksiévitch contam apenas uma história. A história do ser humano em um período e região específicos. A Grande Guerra Patriótica, a Guerra soviética do Afeganistão, o desastre de Chernobil e a queda da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas são apenas pano de fundo para a documentação do discurso de pessoas comuns trituradas por estes acontecimentos. Por ela mesma:

…quantos romances desaparecem sem deixar rastro no tempo. Permanecem na escuridão. Há uma parte da vida humana, uma conversação que não podemos conquistar para a literatura. (…) Adoro a forma como as pessoas falam, adoro a voz humana solitária. Essa é a minha maior paixão, o meu maior amor.

Primeiro li O Fim do Homem Soviético (Companhia das Letras – 2017). Jamais tinha lido algo tão impactante sobre vidas humanas. É claro que não sou o mais ávido dos leitores. Mas tenho certeza que os relatos documentados por Svetlana são únicos. Pessoas que viram os seus sumirem e nunca mais voltarem, que foram para campos de trabalho forçado, que estiveram sob o jugo ininterrupto de uma força esmagadora. E que ainda assim encontravam motivos para serem felizes. Como um idoso uma vez punido mas ainda amante da ideia utópica do socialismo soviético.

Os relatos são cativantes, a literatura de testemunhos de Svetlana me conquistou de modo único. É tão clara a urgência de se registrar, sob todos os ângulos, e nunca mais esquecer, o que aconteceu. A guerra, Stalin, Chernobil. Porém, sob testemunho daqueles que estiveram boiando nesses oceanos de eventos inexplicáveis. Svetlana afirma em diversas passagens de Vozes de Tchernóbil o quanto o povo russo e dos países da antiga URSS buscam uma explicação para estes eventos. Como se a vida pós-guerra, pós-Stalin e pós-Chernobil só tivesse esse objetivo: o que foi que aconteceu?

Em Vozes de Tchernóbil os fatos são coadjuvantes às emoções humanas. Eles apenas abrem a cortina. A mulher do bombeiro que foi apagar o incêndio de uma explosão nuclear conta sobre o amor incondicional, de consequências terríveis. São vidas reais. As vezes não parece, é tudo tão extremo. O que o ser humano pode fazer, como pode reagir.

O subtítulo da obra é Crônica do futuro. Nos perguntamos por quê. E Svetlana responde. Chernobil abriu as cortinas. Chernobil não é o passado. Chernobil é o futuro?

A coisa mais justa do mundo é a morte. Ninguém ainda pode evitá-la.

O consolo passa a ser a morte. O caso de uma criança que foi para um acampamento e conheceu um garoto. Então os amigos do garoto avisaram que ela era de Chernobil. E nunca mais ele se aproximou dela. Seu sonho?

Agora, quando penso no meu futuro, eu sonho em terminar a escola e ir embora para bem longe, para um lugar onde ninguém saiba de onde eu sou. Lá alguém poderá me amar. E eu vou poder me esquecer de tudo.

Chernobil é o futuro.

Eu presto serviço no comando funerário. Esta manhã, eu ainda não tinha tido tempo de tirar o paletó quando a porta se abriu e entrou uma mulher que, mais que soluçar, gritava: “Fiquem com as medalhas, com todos os diplomas. Fiquem com as compensações! Mas devolvam o meu marido”

A morte invisível confundia um povo que vivia ao lado do centro nuclear como se estivessem na idade da pedra. Lhes falavam para lavar tudo, remover uma camada de terra, enterrar as cinzas do fogão a lenha. Alguns relatos chegam a ser cômicos:

Você saia da cidade, e ao longo da estrada surgiam uns espantalhos; via uma vaca pastando coberta por um plástico e ao lado dela uma velha também coberta por plástico. Você não sabia se ria ou se chorava.

O país que colocou o primeiro homem no espaço combatia o átomo com a pá, literalmente. Milhares foram convocados com urgência para enterrar as entranhas do retor número quatro de Chernobil. Doses de radiação muitas vezes além da dose mortal. A construção de um sarcófago para enterrar o potencial assassino inenarrável. E a possibilidade de uma nova explosão e o contágio de uma porção enorme da Europa, e do mundo.

… eu penso que sim, que isso é o preço que pagamos pela rápida industrialização depois da revolução. (…) O que o nosso camponês possui além das suas mãos? E até hoje! O machado, a foice, o facão. É tudo. É nisso que o seu mundo se apoia. Ah, e também a pá. (…) A sua consciência oscilava entre dois tempos, entre duas eras: a da pedra e a atômica.

E assim o desastre do homem para o homem. E também para os outros animais. Svetlana, ao que parece, faz questão de ressaltar o que houve com os bichos. Desde as minhocas e besouros cavados, revirados e enterrados. Até os gatos e cachorros assassinados friamente pelos grupos de caça ordenados para conter tudo o que pudesse espalhar a radiação. Enquanto eles mesmos sorviam medidas de radiação – curies e roentgen.

Destacam-se também outros pilares do povo soviético: a vodka, a literatura e as piadas. A vodka, recomendada como proteção contra a radiação; a literatura, sempre falando do sofrimento, nascida dele; e as piadas…

Anedotas de Tchernóbil. A mais curta: “Que bom povo eram os bielorussos”.

Eram 82 casos de câncer por 100 mil habitantes antes de Chernobil. Depois o número atingiu 6 mil. Um em cada cinco dos bielorussos vive em área contaminada. Milhares de toneladas de césio, iodo, chumbo, zircônio, cádmio, berílio, boro, plutônio; o equivalente a 350 bombas como a que foi lançada em Hiroshima.

Vozes de Tchernóbil registra o passado para falar do futuro. Quem é o homem? Do que é capaz? O que é o amor? A morte? As testemunhas ganham voz através da obra de Svetlana. Nos despejam uma realidade que talvez a ficção não tenha como igualar. Para onde vamos depois de Chernobil?

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