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  • How To Stop Using Facebook Or Any Social Media Without Deleting Your Account

    Unfollow or mute every person you do not know personally or do not had a meaningfully conversation for some time.

    • Mute all of your friends and family.
    Beware of traps
    • If you are addicted, your brain will try to rationalize a way to keep you getting those social media rewards (likes, “knowing” about others, etc. Understand this behavior.
    • No, people won’t judge you because you stopped liking their posts. They are too busy with their own life.
    • “But I get really good content in my Timeline”. No, you don’t, it’s your brain trying to convince you to stay using SM.

    January 1, 2020
  • Dealing With Big Companies

    I almost panic when I need to get in touch with some big corporation. Costumer service calls, for example. You will use your phone to be tortured by an automatic voice telling you that “we value you”. No you don’t value me. You treat me like cattle going down, your costumers are like meat.

    The bullshit is so extensive that words scramble in my mind as I try to put my ideas here. Being an entitled “entrepreneur” wannabe, for sure I think “maybe I can solve this shit and be a big corporation myself”. Oh no, what the fuck is wrong with me? With us – if you find yourself reading my ideas in this blog, I am sure we’re alike. So the deal we end up to: think different just to be equal everybody else.
    This new idea is simple: to avoid doing business with big corporations. I know it is impossible hard. But for the sake of my mental health. That is something I am trying to pursue.
    I took a course on happiness some years ago. On Coursera, I think. The teacher brings all the studies regarding what makes us happier. One fast thing anyone can do: quit social media. Social media as we know today is toxic in so many levels. You literally get healthier if you stop using that. In social media you are only data points for a big corporations pursuing money at any costs.
    Even in my business this struggle is destroying my quality of life. Recently one major marketplace changed some rules about how to ship the products sold in their platform, and with that I was forced to stop selling there. I tried to contact them so many times, and all the replies seems to be automatic, robots. When I could see one human wrote back, it was just for a generic apology, “there is nothing we can do for you right now”.
    This week the OpenAI organization released the “GPT-3 artificial intelligence model”. So many people were putting this as a breakthrough: “the end of callcenters! Better chatbots!”. With all humanity I have in my heart “fuck these people”.
    Of course “artificial intelligence” will replace humans. They are forcing humans to do a horrible job. They put a human being to follow a strict script in a screen, and then they replace the human with a robot. “We made it! Artificial Intelligence”. Fuck these people. But they don’t make the rules, right? They are just “playing the game”. Who needs SkyNet when we have the almighty Capitalism?
    Some corporations are impossible to strip off: utilities like water, power, internet connection service. At least their job is so strict that rarely I need to call the “Customer Service”. Internet provider may have some hiccups, and I thank god I still have my 4G! Other corporations are a bit less shit, so we pay a premium (hello, Apple).
    Anyway, that’s almost a driving force for what I want to do in my life. Bitcoin looks so promise to me: I can have my own money, without being attached to monstrous big Bank Corporations. But it is really hard to use day to day due to low adoption, and it will be like that for long, or forever.
    This rant about anxiety on dealing with big corporations is an open issue for me. If you relate to this, please contact me, via Twitter (hello last barrier to dropping social media entirely) or via email (rafael@hey.com). Hey, an email service created by Basecamp, is a good example on dropping big corps in favor of small business. I hope one day everything in my life is serviced by small business. The one humans take care of, that one humans say “Hello” when you call them.

    January 1, 2020
  • Os 6 Melhores Livros Que Li Em 2018

    Foi o ano que mais li. Começou na páscoa quando decidi devotar o feriadão ao projeto de tirar o carro da lama em que patinava há 6 meses. Essa lama era O Tecido do Cosmo de Brian Greene. Ler sobre Física e imaginar o por que de tudo sempre me fascinou. Mas as tantas dimensões dos vários desdobramentos da Teoria das Cordas bloqueou minha fila de leitura por tempo demais. Depois da lama, decidi acelerar com algo que tinha certeza que devoraria, A Segunda Guerra Fria de Luiz Alberto Moniz Bandeira. Excelente, mas não me marcou tanto quanto A Formação do Império Americano, por isso não ganhou uma posição entre os seis aqui embaixo. Embalado, resolvi conhecer a Svetlana, e me apaixonei. A lista, em ordem de leitura.

    O Fim do Homem Soviético – Svetlana Aleksiévitch

    Difícil explicar o fascínio que a coisa soviética imprime em minha mente. Desde sempre me perguntei como as pessoas viviam sob o obscuro (para nós do ocidente) manto da URSS. E as histórias das pessoas é o foco da Svetlana. Sem julgamentos. Esperança. Violência. Amor. O que o ser humano aguenta, como o ser humano aceita, ou não aceita e se pergunta para o resto da vida: o que eu vivi?

    Sapiens – Yuval Noah Harari

    Sapiens, e logo em seguida Homo Deus, justificaram para mim a fama do escritor israelense. A exposição de como nos tornamos estes humanos \”a partir do macaco\” e como obliteramos os obstáculos é um prato cheio para novas perspectivas.

    O Continente – Érico Veríssimo

    Este ano quis encarar alguma grande obra brasileira. A primeira parte de O Tempo e o Vento estava ao alcance e por nada além disso foi escolhido. Desde a primeira folha foi como se estivesse esfomeado num banquete. Deliciando cada novo personagem (e como são muitos!) e vendo reflexos de todas as histórias que ouvia na infância sobre os costumes gaúchos (tão presentes no interior do Paraná no qual cresci). É claro que depois de breves espaços preenchidos por obras curtas como o mangá GEN Pés Descalços e Sobre a Escrita de Stephen King, entre outras, logo engatei O Retrato. Um tempo mais tarde, depois de me decepcionar com o breve Free Will, de Mark Balaguer, sentei para fechar o papo com Érico Veríssimo em O Arquipélago. Os Cambará e os Terra irão para todo sempre comigo.

    Vozes de Tchernóbil – Svetlana Aleksiévitch

    Outro da Svetlana. Chernobil é o futuro, ela fala no começo. Então os relatos. As histórias. O ser humano das esperanças, do horror, da redenção. Não só dos humanos, os bichos também. A luta da pá contra o átomo. O modo de Svetlana deixar as histórias serem contadas por meio da sua obra são incríveis. Escrevi um post sobre o livro, caso te interesse ler mais.

    10 dias que abalaram o mundo – John Reed

    Um relato de um jornalista americano que presenciou a revolução bolchevique da Rússia. Lênin, Trotsky e Stalin e vários outros personagens \”ao vivo\” nos seus discursos e nos corredores do Instituto Smolny. John Reed é o único \”ocidental\” enterrado dentro das muralhas do Kremlin, próximo do túmulo onde estão os restos de Vladimir Ilitch Lênin. Parcial, a favor do comunismo bolchevique, ainda assim não impede de curtir um dos únicos relatos dos poucos dias que mudaram o século da Rússia.

    História Concisa da Rússia – Paul Bushkovitch

    Svetlana apresenta as pessoas comuns. John Reed nos coloca nos dias da revolução. Que atração pela ideia da \”coisa soviética\”, da união das repúblicas. Ideia do comunismo. O que é isso, afinal? O que é a Rússia? A Rússia não é uma ideia. O comunismo não define a Rússia. Paul Bushkovitch retorna ao Rus de Kiev e tece a história desse país do começo. A Igreja Ortodoxa. Os muitos povos. Os mongóis. A Sibéria. A Ucrânia. A Polônia. A Europa. Um povo partido entre seguir o modelo europeu ou o conservadorismo ortodoxo (\”o seu próprio caminho\”). Ivã, o Terrível. Pedro, o Grande. Catarina, a Grande. Autocracia no ápice. E então, a Revolução. E a Grande Guerra Patriótica. E a queda da União Soviética. O tempo tem o poder de colocar os pontos nos i. No caso da Rússia, ou melhor, do meu fascínio pela Rússia, colocar os pontos nos i significa entender o que Bushkovitch quis dizer com \”A Rússia não é uma ideia\”. A Rússia é um país, com uma história num espaço determinado, por um povo, com uma cultura.


    Para o próximo ano eu quero conhecer Tolstói. Mas pretendo abandonar logo os russos para olhar outros brasileiros. Tanto a ficção quanto a história brasileira. Também desejo alimentar a fome de revolução com alguma coisa da francesa, de que nada sei. No meio de um e outro, ler histórias cyberpunk como as do Cory Doctorow, \”nova\” ficção científica como a do Cixin Liu (que publiquem logo a tradução do terceiro tomo!) e também algum quadrinho \”diferente\” como The Art of Charlie Chan Hock Chye, de Sonny Liew. Dificilmente conseguirei ler tanta coisa, mas a intenção aí está.


    Photo by Nikolay Vorobyev on Unsplash

    2018-12-14 21:46:12

    December 14, 2018
  • Livre Arbitrio Do Quasar Distante

    Of course, randomness isn’t the only thing necessary for free will. But it does mean that your fate is not necessarily sealed. So, when you resist that second cookie, or turn off the TV in the evening, you can take pride in the fact that maybe, just maybe, the choice was yours after all.

    Photons, Quasars and the Possibility of Free Will

    2018-12-05 06:25:45

    December 5, 2018
  • Voices From Chernobyl 2006

    Svetlana Aleksiévitch\’s books tells only one story. The story of human being in a specific period and region. The Great Patriotic War, the Soviet–Afghan War, the Chernobyl disaster and the fall of Union of Soviet Socialist Republics are just background for the documented speech of common folks smashed by those happenings. By herself:

    …how many novels vanish without a trace! Disappear in the darkness. We haven’t been able to capture the conversational side of human life for literature. (…) I love how humans talk, I love the lone human voice. This is my greatest love and passion.

    First I\’ve read The Last of Soviets (2016). Never I\’ve read something so impactful about human life. Of course I\’m not the most avid reader. But I\’m sure the stories documented by Svetlana are unique. People that saw their loved one disappear and never come back, who went to forced labor fields, who were underneath the constant yoke of an overwhelming power. And yet they found motives to be happy. Like an old man once punished but still lover of soviet socialist utopia. The stories are catchy, Svetlana\’s testimony literature got me in a particular way. It\’s so clear the necessity to register, under all aspects, and never forget, what happened. The war, Stalin, Chernobyl. However, by those witnesses, that were floating in those unaccountable events. Svetlana affirms several times in Voices from Chernobyl how much the russian and ex-USSR republics\’s people seek explanation for those events. If the post-war, post-Stalin and post-Chernobyl\’s life had only one objective: what had happened? In Voices from Chernobyl facts are accessories to human emotions. It opens the curtains. The spouse of a fireman that went to work in the nuclear explosion fire tells about unconditional love, one of terrible consequences. Real lives. Sometimes it doesn\’t feel that, it\’s all so extreme. What humans can do, how can they react. The work\’s subtitle are A Chronicle of the Future (Portuguese version; UK too). We ask ourselves why. Svetlana answers. Chernobyl opened the curtains. Chernobyl isn\’t the past. Is it the future?

    The most fair thing in the world is death. No one can scape it.

    Death turns to be the relief. One case of a child that met a boy in a camp. Then their friends told him she was from Chernobyl. Never again he talked to her. Her dream?

    Now, when I think about the future, I dream with finishing studying and going far away from here, somewhere no one know where I am from. So someone can love me. And I can forget everything.

    Chernobyl is the future.

    I work at the mortuary. This morning, I still haven\’t time to take off my jacket when the door opened and a woman came inside, more than hiccups, she screams: \”Take the medals, with all the certificates. Take the compensations! Give me back my husband\”

    The people beside the nuclear center lived like they were in stone age. The invisible death confused them. They were told to clean everything, to remove a layer of earth, to bury ashes of the wood-burning stove. Some stories are comic:

    You went outside town, and beside the road scarecrows started to appear; a grazing cow covered in plastic and beside it an old lady covered in plastic too. You could\’t choose between laughing or crying.

    The country that put the first man in space fought the atom with a shovel, literally. Thousand were called in urgency  to bury the fourth Chernobyl nuclear reactor\’s guts. Radiation many times beyond the deadly dose. A sarcophagus to bury the potential unspeakable killer. And the chance of a new explosion and the contagious of a larger portion of Europe, and the world.

    …I think so, It\’s the price we pay for the rapid industrialization after the revolution. (…) What our peasant has beyond their hands? Until today! The axe, the scythe, the machete. That\’s all. That\’s the peasant world. Oh, and the shovel too. (…) His conscience oscillate between two epochs, two eras: stone and atomic one.

    And that\’s the man\’s disaster to man. And for the other animals too. Svetlana, it looks, emphasizes what happened to the animals. Earthworms and beetles, revoked and buried. Cats and dogs shot dead by hunting groups ordered to contain everything that could spread radiation. While themselves were dying with radiation doses – curies and roentgen. Other pillars of soviet people stand out too: vodka, literature and the jokes. Vodka was recommended as protection against radiation; literature, always about suffering, born from it, and the jokes…

    Chernobyl jokes. Shortest: \”What a good people were the belarussians\”.

    Before Chernobyl were 82 cases of cancer per 100 thousand inhabitants. After, number went up to 6 thousand. One of five belarussians live in contaminated area. Thousands of tons of cesium, iodine, lead, zirconium, cadmium, beryllium, boron, plutonium; equivalent to 350 bombs like the one dropped in Hiroshima. Voices from Chernobyl register the past to talk about the future. Who is the man? What he is capable of? What is love? Death? Witnesses gain a voice with Svetlana\’s work. They spill over us the reality that no fiction can match. Where are we going after Chernobyl?

    2018-08-15 14:48:51

    August 15, 2018
  • Vozes De Tchernobil Companhia Das Letras 2016

    Os livros de Svetlana Aleksiévitch contam apenas uma história. A história do ser humano em um período e região específicos. A Grande Guerra Patriótica, a Guerra soviética do Afeganistão, o desastre de Chernobil e a queda da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas são apenas pano de fundo para a documentação do discurso de pessoas comuns trituradas por estes acontecimentos. Por ela mesma:

    …quantos romances desaparecem sem deixar rastro no tempo. Permanecem na escuridão. Há uma parte da vida humana, uma conversação que não podemos conquistar para a literatura. (…) Adoro a forma como as pessoas falam, adoro a voz humana solitária. Essa é a minha maior paixão, o meu maior amor.

    Primeiro li O Fim do Homem Soviético (Companhia das Letras – 2017). Jamais tinha lido algo tão impactante sobre vidas humanas. É claro que não sou o mais ávido dos leitores. Mas tenho certeza que os relatos documentados por Svetlana são únicos. Pessoas que viram os seus sumirem e nunca mais voltarem, que foram para campos de trabalho forçado, que estiveram sob o jugo ininterrupto de uma força esmagadora. E que ainda assim encontravam motivos para serem felizes. Como um idoso uma vez punido mas ainda amante da ideia utópica do socialismo soviético. Os relatos são cativantes, a literatura de testemunhos de Svetlana me conquistou de modo único. É tão clara a urgência de se registrar, sob todos os ângulos, e nunca mais esquecer, o que aconteceu. A guerra, Stalin, Chernobil. Porém, sob testemunho daqueles que estiveram boiando nesses oceanos de eventos inexplicáveis. Svetlana afirma em diversas passagens de Vozes de Tchernóbil o quanto o povo russo e dos países da antiga URSS buscam uma explicação para estes eventos. Como se a vida pós-guerra, pós-Stalin e pós-Chernobil só tivesse esse objetivo: o que foi que aconteceu? Em Vozes de Tchernóbil os fatos são coadjuvantes às emoções humanas. Eles apenas abrem a cortina. A mulher do bombeiro que foi apagar o incêndio de uma explosão nuclear conta sobre o amor incondicional, de consequências terríveis. São vidas reais. As vezes não parece, é tudo tão extremo. O que o ser humano pode fazer, como pode reagir. O subtítulo da obra é Crônica do futuro. Nos perguntamos por quê. E Svetlana responde. Chernobil abriu as cortinas. Chernobil não é o passado. Chernobil é o futuro?

    A coisa mais justa do mundo é a morte. Ninguém ainda pode evitá-la.

    O consolo passa a ser a morte. O caso de uma criança que foi para um acampamento e conheceu um garoto. Então os amigos do garoto avisaram que ela era de Chernobil. E nunca mais ele se aproximou dela. Seu sonho?

    Agora, quando penso no meu futuro, eu sonho em terminar a escola e ir embora para bem longe, para um lugar onde ninguém saiba de onde eu sou. Lá alguém poderá me amar. E eu vou poder me esquecer de tudo.

    Chernobil é o futuro.

    Eu presto serviço no comando funerário. Esta manhã, eu ainda não tinha tido tempo de tirar o paletó quando a porta se abriu e entrou uma mulher que, mais que soluçar, gritava: “Fiquem com as medalhas, com todos os diplomas. Fiquem com as compensações! Mas devolvam o meu marido”

    A morte invisível confundia um povo que vivia ao lado do centro nuclear como se estivessem na idade da pedra. Lhes falavam para lavar tudo, remover uma camada de terra, enterrar as cinzas do fogão a lenha. Alguns relatos chegam a ser cômicos:

    Você saia da cidade, e ao longo da estrada surgiam uns espantalhos; via uma vaca pastando coberta por um plástico e ao lado dela uma velha também coberta por plástico. Você não sabia se ria ou se chorava.

    O país que colocou o primeiro homem no espaço combatia o átomo com a pá, literalmente. Milhares foram convocados com urgência para enterrar as entranhas do retor número quatro de Chernobil. Doses de radiação muitas vezes além da dose mortal. A construção de um sarcófago para enterrar o potencial assassino inenarrável. E a possibilidade de uma nova explosão e o contágio de uma porção enorme da Europa, e do mundo.

    … eu penso que sim, que isso é o preço que pagamos pela rápida industrialização depois da revolução. (…) O que o nosso camponês possui além das suas mãos? E até hoje! O machado, a foice, o facão. É tudo. É nisso que o seu mundo se apoia. Ah, e também a pá. (…) A sua consciência oscilava entre dois tempos, entre duas eras: a da pedra e a atômica.

    E assim o desastre do homem para o homem. E também para os outros animais. Svetlana, ao que parece, faz questão de ressaltar o que houve com os bichos. Desde as minhocas e besouros cavados, revirados e enterrados. Até os gatos e cachorros assassinados friamente pelos grupos de caça ordenados para conter tudo o que pudesse espalhar a radiação. Enquanto eles mesmos sorviam medidas de radiação – curies e roentgen. Destacam-se também outros pilares do povo soviético: a vodka, a literatura e as piadas. A vodka, recomendada como proteção contra a radiação; a literatura, sempre falando do sofrimento, nascida dele; e as piadas…

    Anedotas de Tchernóbil. A mais curta: “Que bom povo eram os bielorussos”.

    Eram 82 casos de câncer por 100 mil habitantes antes de Chernobil. Depois o número atingiu 6 mil. Um em cada cinco dos bielorussos vive em área contaminada. Milhares de toneladas de césio, iodo, chumbo, zircônio, cádmio, berílio, boro, plutônio; o equivalente a 350 bombas como a que foi lançada em Hiroshima. Vozes de Tchernóbil registra o passado para falar do futuro. Quem é o homem? Do que é capaz? O que é o amor? A morte? As testemunhas ganham voz através da obra de Svetlana. Nos despejam uma realidade que talvez a ficção não tenha como igualar. Para onde vamos depois de Chernobil?

    2018-07-19 18:28:01

    July 19, 2018
  • Sistema

    Dona Adriana morava sozinha e todos os dias sofria de saudades do filho que fora viver na Europa. Havia quase três anos que ele se mudara em busca de uma vida melhor. Dona Adriana, viúva, ficou triste quando ele foi, teve um episódio grave de depressão. Ficou seca e enrugada igual uma uva passa. Um dia conversava no portão com sua vizinha, e aprendeu que poderia matar um pouco da saudade do filho de uma maneira mais conveniente: – Por que a senhora não liga pela internet? Dá para ver ele por vídeo. Vocês se veem e conversam como se ele estivesse na sua sala. A senhora tem computador, né? A senhora tem internet? – Ai minha filha, sabe que eu já sou velha. Não entendo destas coisas. Internet. Celular. Não é pra gente como eu. O computador só tenho porque é do Ricardo e ele não quis levar quando foi embora. – Mas eu te ensino. Juro que a senhora vai gostar. É bem fácil. A senhora tem internet né? – Não tenho minha filha. Ricardo tinha. Mandou desligar quando foi. – Mas assim. Eu ajudo a senhora e instalamos internet e vai poder falar com seu filho sem gastar muito. Vai pagar só a mensalidade da internet. Dona Adriana dava sinais que estava perdida na conversa. Sorria e balançava a cabeça concordando com tudo. Extremamente perdida. Porém encantada com a ideia de olhar o rosto do filho, nem que fosse pela tela do computador. A vizinha trabalhava em casa produzindo doces e salgados para festas de casamento. Sempre que sobrava um tempinho trazia uns mimos para Dona Adriana. Tinha saudade da sua própria mãe e tratar bem a vizinha aplacava um pouco essa saudade. – Agora eu tenho que terminar uma entrega mas a tarde eu tenho um tempinho para ver isso com a senhora. Cada uma se recolheu em sua casa para mais tarde encontrarem-se na sala de Dona Adriana. A vizinha com toda calma do mundo ligou para o atendimento da operadora de telecomunicação. Música. Espera. Uma voz gravada pedindo o número do documento. Para contratar um novo serviço, digite 1. Para receber a sua fatura, digite 3. Para manutenções já programadas, digite 5. Para outras opções, digite 0. Apertou o número um do telefone, um tom digital soou. Instantes se passaram. Agradecemos a sua ligação, aguarde mais um instante que já iremos lhe atender. Dizia a moça simpática da voz gravada. Mais espera. Enquanto esperavam, Dona Adriana se levantou, foi até a cozinha, ligou o gás do forno, pegou a caixa de fósforos e então acendeu. Percebeu que a vizinha olhava em sua direção, sentiu vontade de explicar mesmo que aquela nem tivesse feito a pergunta. – Estragou meu fogão. Só acende no fósforo. Vai um chazinho? – Ah. Eu peço pro meu marido arrumar pra senhora. Ele arruma qualquer coisa! Eu aceito um chá, sim. Atenderam a vizinha. Ela disse que queria ligar a internet na casa da Dona Adriana. Passou os números de documentos. Escolheu o plano mais baratinho. Mais espera. O sistema está lento, senhora, pedimos desculpas. Tudo bem, respondeu já impaciente naquela ligação que já se aproximava de dez minutos. Trocou o telefone de mãos, para a esquerda, porque a orelha direita já estava cansada. Já estou concluindo, senhora. Tudo bem, mais uma vez respondeu. Dona Adriana depositou as duas xícaras de chá de camomila na mesa. – É de camomila. Deixa bem calma. Eu tomo todos os dias para minha pressão alta. – O cheiro está ótimo. Pronto senhora, o procedimento está completo. A frase saiu do telefone para puxar a atenção da vizinha. Ok, ok. Mais alguma coisa em que eu possa ajudá-la, senhora? Nada não, respondeu. – Olha só Dona Adriana. Eles vão vir aqui até sexta-feira para instalar para a senhora. Depois que eles virem eu ensino a senhora a falar pelo computador com seu filho. Está bem? – Muito obrigado, minha filha. Agora tome seu chá antes que esfrie. Passou o resto daquela quarta-feira e toda a quinta-feira. Na sexta-feira de manhã, Dona Adriana ouviu um barulho na frente da sua casa e foi curiosa até a janela, puxou a cortina e viu um homem dependurado no poste. Deve ser a internet, pensou. Fez seu chá. Esperou na mesa. O homem tocou a campainha. Dona Adriana o recepcionou. – Oi, meu filho. – Vim instalar a internet para a senhora, posso entrar? – Entre, está aberto, sem cadeado. Não tem cachorro. O homem se aproximou da porta e pediu licença para entrar. – Onde a senhora quer que eu coloque o modem? – Ai, meu filho. O que que é isso? Eu não entendo nada de computador. Foi minha vizinha que pediu a internet para eu falar com meu filho. Meu filho foi morar na Europa, sabe. Eu falo com ele pelo telefone mas é caro para ligar todo dia. A vizinha me contou que pela internet é de graça. Não vendo fim na explicação da senhorinha, o homem a interrompeu. – Onde fica o computador? Eu coloco perto dele e tudo certo. – Ah. Entre, entre. É lá na sala. Foram pelo pequeno corredor que passava pela porta da cozinha, pelo corredor dos quartos e terminava na sala. O homem se pôs a arrancar tomada, puxar fios, cortar, remendar, pregar peças umas nas outras. Dona Adriana olhava, desconfiada. – Cê quer um chá, meu filho? – Não, senhora. Muito obrigado mas eu estou meio com pressa. Tenho muita instalação para fazer hoje. O homem ligou o computador, fez um teste para se certificar que a internet estava ligada e funcionava. – Pronto, senhora. Agora é só surfar na rede. Dona Adriana não soube como responder. Só agradeceu e acompanhou com os olhos enquanto o homem juntava suas tralhas. Ele se foi e deixou o computador ligado. Dona Adriana nem sabia como desligar a máquina, que ficou lá, iluminando a sala escura – as cortinas viviam bem fechadas naquela casa. Foi no final da tarde de sábado que a vizinha apareceu. Bateu palmas no portão e foi entrando, conhecida que era. Dona Adriana apareceu na porta. – Ai minha filha, que bom que você veio. O homem deixou a internet ligada aqui. Eu nem desliguei porque eu não sei mexer nessas coisas. Foram até a sala, onde o computador estava ligado. A vizinha puxou uma cadeira e sentou na frente do computador. – Vou instalar um programa para a senhora falar com seu filho. Dona Adriana ficou calada. Não sabia o que era instalar e não sabia o que era programa. Quando tentou imaginar o que era instalar um programa, sua mente perdeu o fio. – Pronto. Até achei ele. Deixei o nome do Ricardo aqui, é só a senhora clicar. Venha ver. Dona Adriana arrastou uma cadeira e sentou ao lado de sua vizinha. Estava com a atenção ligada no máximo. Queria muito aprender como fazer aquilo, se é que iria funcionar essa coisa de ver seu filho pela internet. Então o rosto de Ricardo apareceu na tela. Dona Adriana sentiu um arrepio no corpo todo. Levou ambas as mãos a boca num gesto de incredulidade. – Meu filho! Ricardo! Como você está, meu filho? – Quase gritava, como se fosse necessário falar muito alto para que a voz viajasse por toda a internet e chegasse lá do outro lado do mundo, na Europa. – Oi, mãe! Que bom ver a senhora! Quer dizer que agora está conectada por aí, é? Que coisa boa! A vizinha cumprimentou Ricardo, contou que havia ajudado a mãe dele com a instalação da internet. Ele agradeceu e disse que ficava realmente mais feliz em saber que sua mãe tinha uma vizinha tão querida com quem contar. Ela pediu licença e disse que voltaria a sua casa. Meu marido está me esperando, temos uma festa de criança para ir. Tchau, Ricardo. Até logo, Dona Adriana. Sem tirar os olhos da tela, Dona Adriana se despediu da vizinha e voltou a falar com o filho. Falaram por meia hora. Se despediram e ela disse para ele ligar sempre que pudesse. – O computador vai ficar ligado aqui para você me ligar a hora que quiser, meu filho. Eu te amo. E vê se se cuida que aí tem muito terrorista. Eu fico preocupada. A ligação terminou. Dona Adriana foi até o fogão, ligou o gás, abriu a gaveta, pegou os fósforos, ligou o fogo, pôs a chaleira. Fez seu chá de camomila e sentou-se no sofá, mas olhando para o computador. Estava tão feliz com a novidade. Meses se passaram. O medo de Dona Adriana com aquela máquina diminuiu na medida em que se sentia agradecida por poder ver o rosto do seu filho de quem tanto sentia saudades. A vizinha vinha pelo menos uma vez por semana e ensinou algumas coisas básicas. Dona Adriana aprendeu a desligar e ligar a máquina (mas ainda deixava ligada desde que acordava até a hora de dormir – Ricardo pode ligar a qualquer momento, ela pensava). Também aprendeu a ler as notícias, e pesquisar sobre sonhos e simpatias. Aos poucos se tornava mais íntima da tecnologia. A internet é uma maravilha, começava a pensar. Julho chegou, e com ele a friaca do inverno. Dona Adriana tinha seu ritual ao acordar. Lavar a cara, esquentar água, fazer chá, comer um pedaço de cuca, e sentar na frente do computador para ler as notícias do dia. Mas nesse dia especialmente frio, quando clicou para abrir a página da internet, as coisas não apareceram como deveriam na sua tela. Clicou novamente. Nada. De novo. Nada. Desistiu de insistir e viu no centro da tela alguma coisa escrita. O recurso buscado encontra-se inacessível ou sua conexão com a internet não está funcionando. O que será que é isso? Depois de uns minutos decifrou o texto: sua internet tinha parado de funcionar. Imaginou que se tratava de algo passageiro. Levantou da cadeira e foi se ocupar com outras coisas. No fim da tarde voltou, fez o mesmo procedimento e a mesma mensagem aparecia. Lembrou do aparelho que o homem da internet havia instalado, estava no chão ao lado da mesinha em que ficava o computador. Olhou para ele. Ainda piscava. Quem sabe amanhã funcione, imaginou. No outro dia, o mesmo problema. Clicou mais forte no mouse. Nada. Ficou irritada, mas o que poderia fazer? Desistiu de tentar e se deu conta que teria que esperar sua vizinha voltar de viagem para lhe ajudar com isso. Dona Adriana passou aquela semana irritada. Estava acostumada a ver suas coisas na internet. No sábado ficou especialmente contrariada porque havia sonhado com um corvo muito grande e parrudo. O corvo grasnava num volume ensurdecedor. E atacava sua casa. Ela sentia muito medo. O que será que significa sonhar com corvo? Maldição de internet, praguejava. A ela restava voltar para a televisão. No sábado a noite ligou para ver o jornal. Imagens de pessoas correndo, um incêndio. Aumentou o volume.

    … o governo disse que vai prestar assistência às famílias das vítimas. O chefe da polícia local, em entrevista coletiva, informou que investigadores estão perseguindo algumas pistas deixadas pelos suspeitos dos ataques. Mais uma vez o medo toma conta de Paris, que se vê acuada diante de outro ataque pavoroso contra inocentes indefesos.

    Dona Adriana de súbito sentiu seu coração palpitando forte. Ricardo. Ele está em Paris. Meu Ricardo. Meu Deus. Começou a chorar. Sentiu uma tontura. O remédio da pressão. Levantou se apoiando no que podia, no braço do sofá, na estante, na mesa. Finalmente chegou até a gaveta com o remédio, tomou duas pílulas. Se sentou na cadeira. Ricardo. Ricardo. Ricardo. O medo lhe apertava a garganta. Começou a chorar mais forte. Olhou em volta, cadê o telefone. Foi se apoiando até a mesa de centro na sala. Pegou o telefone sem fio. Olhava o papel colado na base do aparelho e discava os números. Errou duas vezes e ouvia uma voz automática dizendo que a ligação não poderia ser completada. Finalmente acertou. Mas a mesma mensagem. Discou novamente. A mesma mensagem. Então se lembrou que na última vez que havia falado com Ricardo pela internet ele disse ter perdido o telefone celular e que só poderia comprar outro no final do mês quando recebesse o salário. Mais choro. Soluços. Dona Adriana ficou desesperada. Só conhecia sua vizinha que podia lhe ajudar, mas ela estava viajando. Sentou resignada no sofá e se pôs a acompanhar as notícias do atentado terrorista. Dormiu ali mesmo no sofá, com a televisão ainda ligada. Um pastor gritava algo sobre um demônio. Ela acordou assustada. Sonhara com Ricardo, que a chamava e ela respondia mas sua voz não saia da sua boca. Ela tentava falar, gritar, e não conseguia. Se levantou e procurou o relógio da cozinha. Não chegava a marcar cinco da manhã. Fez seu chá, tomou seu remédio da pressão. Sentada na mesa, lhe veio a ideia de ligar para o homem da internet. Procurou numa estante, depois na outra, e finalmente encontrou a caixinha que o homem havia deixado. Abriu e revirou os papéis em busca de um número. Num dos selos pode ler Atendimento ao Cliente. Discou aquele número. Música. Uma voz gravada pedindo o número do documento. Dona Adriana não estava com seu documento em mãos. Então colocou o telefone sobre a mesa e foi até a gaveta da estante. Encontrou seus papéis e os trouxe para o sofá, depositando ao seu lado. Escolheu sua velha identidade. Pegou o telefone. Um tom de ocupado. A ligação havia caído. Ligou novamente. Música. Uma voz gravada pedindo o número do documento. Dona Adriana com o documento no seu colo, olhava para ele e digitava o número, olhava para ele e digitava o número, até completar todos os dígitos. Documento inválido, por favor digite o número do seu documento. Ela o fez novamente. E o resultado foi o mesmo. Documento inválido. E a ligação caiu. – Não deve ser esse – Disse para si mesma. Escolheu um cartão azul em que se podia ler “Cadastro de Pessoas Físicas”. Examinou e encontrou um número. Discou no telefone. Música. Uma voz gravada pedindo o número do documento. Apertou número por número com muito cuidado para não errar. Obrigado por ligar para a TT Telecom, sua ligação é muito importante para nós! Dizia a voz gravada. Para contratar um novo serviço, digite 1. Para receber a sua fatura, digite 3. Para manutenções já programadas, digite 5. Para outras opções, digite 0. E agora? O que fazer? Ficou confusa com as opções, não sabia qual deveria apertar. Escolheu o 0. Para dicas de como usar o anti-vírus ultramax, digite 2. Para configuração do proxy para jogos, digite 5. Para suporte do serviço banda larga ultramax, digite 8. Para voltar ao menu principal, digite 0. Dona Adriana começava a ficar nervosa em ser obrigada a lidar com aquilo. Não sabia o que tinha que apertar dessa vez. O que é anti-vírus? O que é proxy? O que é ultramax? O que é banda larga? Meu Deus como isso é difícil. O atendimento automático repetiu as opções. Ela decidiu pela opção que falava suporte, parecia a mais próxima do que precisava. Você escolheu a opção suporte banda larga, certifique-se de ter feito o procedimento padrão antes de receber o atendimento da nossa central. Você deve desligar o modem da tomada, aguardar um minuto e só então religar na tomada. Depois basta testar se a internet voltou a funcionar. Música. Dona Adriana ficou pensativa. Decidiu que tentaria isso. Desligou o telefone. Foi até o modem e seguindo o fio que saia de trás dele, encontrou a tomada. Desligou. Contou até sessenta. Religou. As luzes reacenderam. Sentou-se na cadeira, e clicou para abrir a internet. Não funcionou. – Merda – Uma irritada Dona Adriana praguejou. Voltou para o telefone. Discou. Documento. Música. Sua ligação é blá blá blá para nós. Opções. Mais opções. Procedimento padrão. Todos os nossos consultores estão ocupados no momento, aguarde na linha que já vamos lhe atender. Aguardou. O tempo ia passando. Um, cinco, vinte minutos. Sua irritação crescia. Sua pressão alta a preocupava. Olhou no telefone e constatou que já estava esperando por meia hora. Levantou e foi fazer seu chá, sem desgrudar a orelha do aparelho. Quase quarenta minutos depois, uma voz humana quebrou o mantra da voz automática. – Bom dia! Meu nome é Romilson, com quem eu falo? – Oi, é Adriana. – Em que posso ajudá-la, Adriana? – Minha internet não está funcionando. Não consigo mais falar com meu filho. Eu tô nervosa meu filho, por favor me ajude. Eu preciso falar com meu filho. – Tudo bem senhora, primeiro preciso saber qual é o número do seu documento. – Peraí meu filho. Está lá no sofá eu vou olhar. – Ok, senhora. No minuto seguinte ela falou o número. – Aguarde mais um momento enquanto verifico. – Tá bom, meu filho. Minutos passaram. – Só mais um momento, senhora. O sistema está lento hoje. Dona Adriana ouviu ele falar sistema e imaginou que era o nome de algum outro funcionário do local. Já estava sem paciência. Lembrou do filho, sentiu um arrepio. – Senhora, estou verificando e está tudo certo com sua internet. – Mas não está funcionando, meu filho. Como está certo, se não está funcionando? Por que eu ia te ligar, meu filho? – Calma, senhora. É o que o sistema diz. Internet operante. A senhora já realizou o procedimento padrão de desligar e ligar o modem? – Eu quero falar com esse sistema, manda ele vir aqui em casa ver se pega a internet, meu filho. Não está pegando. Já desliguei sim. Liguei e está lá piscando mas não funciona. – Senhora. O que eu posso fazer é agendar uma visita com do técnico em sua casa. – Tá bom, meu filho. Faça isso. – Aguarde um momento enquanto verifico a agenda dos técnicos, senhora. Minutos se passaram. – Aguarde mais um momento, senhora. O sistema está lento hoje. Pedimos desculpas. Mais minutos foram. – Temos um horário disponível para semana que vem, na quinta-feira, na parte da manhã. Vou marcar para a senhora, tudo bem? – Eu não posso esperar tudo isso. Meu deus. Eu preciso falar com meu filho. Veja bem, meu filho perdeu o celular dele. Ele mora na Europa e só consigo falar com ele pela minha internet. Por favor, me ajude. – Senhora, não há nada que eu possa fazer. Somente agendar a visita do técnico. As lágrimas rolavam no canto dos olhos de Dona Adriana. Ela tremia de nervos. Não conseguiria ter notícias do filho. O grasnado do corvo passou pela sua mente. Sentiu um aperto no coração. – Agenda para mim, então, meu filho. Se é só isso que você pode fazer por uma senhora idosa que está sofrendo. – Senhora, me desculpe. Eu só estou fazendo meu trabalho. Vou agendar para a senhora. – Eu estou nervosa, eu não sei se meu filho está bem – O choro agora afetava sua voz. – Só mais um momento senhora. O sistema está travado. Então a ligação caiu. Dona Adriana demorou quase três minutos para se dar conta disso. Quando percebeu, desligou o telefone, o colocou na mesinha, e desabou no sofá, nervosa e chorando. Acordou várias horas depois. Sentiu uma fisgada na costas. Havia dormido de qualquer jeito no sofá. Seu corpo já não aceitava bem quando isso acontecia. Levantou se escorando onde podia. Foi até a gaveta dos remédios e tomou dois analgésicos. A dor nas costas era imensa. Mas logo lhe veio Ricardo na mente e essa outra dor era pior. Não tinha notícias do filho. Lembrou do sonho com o corvo. Bicho maldito, o que será que significa? E o meu Ricardo. Meu Deus. E novamente chorou.


    Catarina entrou no prédio correndo, estava alguns minutos atrasada. Já tinham lhe chamado a atenção e a próxima vez poderia ser demitida por justa causa. Tirou uma alça e jogou a mochila na frente do peito. Abriu o zíper. Pegou seu crachá. Passou na roleta e entrou no corredor que levava até seu posto de trabalho. Todos os dias sua rotina era parecida. Acordava às cinco e meia da manhã e seguia para a feira – cada dia em um lugar diferente da cidade. Ajudava os pais feirantes a montar e vender as frutas e legumes até às onze horas. Dali, pegava um ônibus para seu trabalho numa central de atendimento. Devia entrar meio dia em ponto, mas dependia do local em que tinha sido a feira. As vezes atrasava. Almoço? Levava uma marmita, que esquentava logo antes de sair da barraca da feira, comia no ônibus sob olhares de reprovação. Trabalhava durantes seis horas com dois descansos de pouco mais de dez minutos cada. Às dezoito horas, corria novamente para pegar o ônibus, às dezenove começava sua aula no curso de Assistente Social. Era estressante. Era difícil. Mas faria qualquer coisa por seu sonho. Estava disposta a sofrer essa rotina destruidora para ter como pagar a mensalidade. Tudo para que um dia pudesse ajudar quem mais precisa. Iria valer a pena. O trabalho na central de atendimento era extenuante. Tinha que chegar, sentar e atender ligações. Uma atrás da outra. Dezenas. Só não chegava na casa das centenas porque o aparelho de trabalho era velho e lento. Tinha um supervisor nojento que passava caminhando atrás dela de vez em quando. Já havia notado que ele olhava e encarava sem qualquer pudor qualquer uma das mulheres que se vestisse com um mínimo decote ou uma roupa mais apertada. Nojentão era o apelido dele entre elas. Mas o chefe verdadeiro era aquele que se apresentava na tela a sua frente, o sistema. As ligações entravam pelo sistema, que tudo ouvia e tudo iria se lembrar. O que ela teria que dizer era descrito pelo sistema. Suas opções, limitadas pelo sistema. Deus do antigo testamento tinha menos poderes sobre um ser humano do que o sistema tinha sobre aqueles pobres funcionários da central de atendimento. Primeira ligação. Segunda. Terceira. O dia começou e as habituais baixarias também. Ligava gente que não sabia em que planeta estava, dúvidas totalmente fora de contexto. Pior ainda eram os pervertidos que queriam ouvir uma voz feminina enquanto praticavam nojeiras. De vez em quando alguém normal, que falava em tom normal, mantinha um diálogo que fazia sentido. Porém, nesses casos, tanto ela quanto a pessoa enfrentavam outro problema, o sistema. A ela só restava pedir calma, tentar explicar. Do outro lado, mesmo a mais calma das pessoas não se aguentava. Então vai tomar no cu, e desligavam. Doía muito, ela não tinha qualquer controle sobre a situação. Era comum que seus intervalos de dez minutos fossem sessões de choro. Não foi diferente quando recebeu uma ligação de uma senhora chamada Adriana Santana. – Bom dia. Com quem eu falo? Em que posso ajudar? – disse Catarina. – Oi, minha filha. Aqui quem está falando é Adriana. É o seguinte. Eu já liguei umas cinco vezes aí e ninguém resolve o meu problema. É que eu estou sem internet e eu preciso de internet para falar com o meu filho… – Tudo bem, senhora eu vou verifi…. – Foi cortada pela voz de Adriana, que continuava a falar e falar. – …ele perdeu o telefone e não mora aqui. Ele mora na Europa. Ele foi para trabalhar lá e está sem telefone e não consigo falar com ele. A minha vizinha, que é uma querida, me ajudou a instalar a internet de vocês aqui em casa e eu conseguia falar com o Ricardo no computador – A voz embargava ao lembrar do filho. – Senhora, vou verificar para a senhora, só preciso…. – …desculpe eu estou chorando de novo. Eu só choro desde que eu vi na televisão. Não sei se você viu. Teve um atentado. Morreu muita gente. É na cidade do meu filho. Eu estou sentindo um aperto no coração, eu estou sofrendo muito. Por favor, me ajude. – Senhora. Vou te ajudar. Preciso do número do seu documento para dar entrada no sistema. Dona Adriana respirou fundo e entregou os números. – Ok. Acessei o cadastro. Parece que está tudo normal. A senhora já tentou…. – Sim, minha filha, eu já desliguei e liguei várias vezes. Não funciona. – Então vamos agendar um técnico para ir na casa da senhora. Tudo bem? Vou ver se consigo um encaixe para não demorar. Estou abrindo a agenda. Só um minuto por favor. Dona Adriana tremia. Tinha dor nas costas. Dor de cabeça. Tremia. Lembrava de Ricardo e todas as dores eram multiplicadas. Enquanto esperava em silêncio ao telefone sentia o coração pulsando. Um bate, bate, bate desesperado. Como se a cada pulso a vontade do coração fosse de explodir. – Senhora. Temos um espaço para amanhã a tarde. Vou agendar para a senhora, tudo bem? – Tudo, minha filha. Muito obrigado. E desatou a chorar com soluços agudos. Catarina ouvia. Era a última ligação do seu turno e seu coração se apertou. Estava acostumada a sofrer ataques gratuitos por aquele telefone. Aguentava – pelo menos até chegar na pausa do choro. Mas ouvir aquela senhora, imaginar o desespero dela, era insuportável. Começou a chorar baixinho, colocou seu microfone no mudo. Depois de alguns segundos respirou fundo antes de voltar a falar. – Senhora. Vai ficar tudo bem, tá? Então as duas choraram juntas. Uma ouviu o choro da outra. Se compadeciam. O sofrimento humano é processado no interior dos corpos, mas ele vive fora deles. O sofrimento de Dona Adriana de algum modo se convertia em sinais que viajavam da sua casa e chegavam na central de atendimento. Catarina era aberta ao sofrimento alheio, e absorvia. Absorvia e sofria junto com Dona Adriana. – Você é um anjo. Eu quero que você venha aqui em casa um dia que eu te faço um chá e a gente conversa. Aliás, acho que vou fazer um agora para tentar me acalmar. Um grito generalizado na central de atendimento fez Catarina colocar o microfone no mudo novamente. Ergueu a cabeça e entendeu. O sistema havia travado pela terceira vez naquele dia. Na sua frente os dados de Adriana ainda estavam lá, mas tudo congelado. Não pode ajudar. – Senhora? Meu sistema travou. Não consegui realizar o agendamento. A senhora terá que ligar novamente depois. Nenhuma resposta veio do outro lado. Catarina esperou um pouco antes de desligar. Seu turno estava a cinco minutos do final. O endereço de Adriana ainda na tela. Lembrou das últimas palavras que ela havia lhe dito. Puxou a caneta que tinha no bolso graças ao trabalho na feira, e anotou na palma da mão o endereço. Saiu do prédio mas não se dirigiu ao ponto de ônibus como todos os dias. Ligou para o namorado. – O que você está fazendo agora? – Oi amor, estou saindo do trabalho, indo para casa. Por quê? – Pode vir me buscar? Eu preciso ir num lugar. Você me leva? – Ué. Não vai para a aula hoje? – Não. Tenho uma coisa mais importante para fazer. Em quinze minutos seu namorado chegou. Ela entrou no carro. – Nossa. Que cara é essa? O que aconteceu? – Perguntou ele. – Recebi uma ligação hoje. Uma senhorinha. Ela está desesperada. O filho mora em Paris e teve um atentado lá. Só que o único contato dos dois é pela internet e adivinha, a dela parou de funcionar. Eu falei que ia resolver isso para ela, o sistema travou. Quero ir para lá agora. – Mas…não é proibido você pegar o endereço de cliente? – É. E só consegui pegar porque o sistema estava travado. Ainda com o endereço dela na minha frente. O endereço é esse. – Sei onde fica. É perto. Você tem certeza disso? – Se eu tenho certeza? O sentido da minha vida é ajudar os outros. Você sabe disso. Essa mulher está sofrendo. Eu senti isso. Senti muito forte aqui dentro. Você não entende. – Calma. Calma. A gente vai. Chegaram até a rua. Passaram devagar pelas casas até encontrar o número trezentos e vinte e cinco. – É aqui – Disse ela. Estacionaram na calçada e desceram. Foram até o portão. Apertaram a campainha. Esperaram um pouco e ninguém apareceu. – Estou com um pressentimento ruim. Vou entrar. Olha, está sem cadeado no portão. – Está maluca? Já viemos até aqui, chamamos, não tem ninguém. Você quer invadir a casa da pessoa? – Então fica aí fora, eu vou entrar. – Ah, não vou te deixar fazer isso sozinha. Catarina abriu o portão e entrou, caminhou pela calçada em direção a porta da entrada. Bateu. – Adriana? Adriana? Ninguém apareceu. Ela meteu a mão na fechadura. Seu namorado estava visivelmente nervoso. Ela estava decidida. A porta estava destrancada. No momento em que empurrou a porta sentiu um cheiro forte. – É gás! Meu deus. Seu namorado procurou o interruptor de luz e levou um tapa de Catarina. Então ela colocou a manga da sua blusa no seu rosto e entrou na casa escura. O namorado foi atrás dela. Chegaram na primeira porta e viram uma senhora idosa desmaiada no chão, uma caixa de fósforos aberta com fósforos espalhados pelo chão. E uma chaleira ao lado do fogão. Ambos se olharam e rapidamente correram para ajudar Dona Adriana. Começaram a puxar ela pela cozinha e então ouviram um barulho. – Dona Adriana? A senhora está aí? A vizinha acabara de chegar de viagem, e logo que virou a esquina viu aquelas pessoas estranhas entrando na casa de Dona Adriana. Saiu do carro antes de entrar na sua garagem e foi lá ver quem eram. Ela deu um passo para dentro da porta, um cheiro forte de gás. Então viu dois vultos no corredor, na altura da porta da cozinha. Precisava ver quem eram. Acionou o interruptor de luz. Uma fagulha mínima entre o bocal e a lampada mal instalada foi suficiente para causar a explosão. Os corpos de Catarina e do namorado foram arremessados quase até a entrada da sala. O de Dona Adriana ficou esticado na porta da cozinha. Os três morreram instantaneamente com o impacto e com estilhaços dos balcões e do metal do fogão. A vizinha foi arremessada até o muro da casa, quebrou duas costelas. Os bombeiros chegaram e rapidamente controlaram o pequeno incêndio na cozinha. Deixaram os corpos esticados lá para o trabalho dos peritos. Estes chegaram quase uma hora depois da explosão e começaram a marcar os pontos de interesse e imaginar como se deu tudo ali. Havia o depoimento da vizinha, sobre pessoas estranhas. Mas essas duas pessoas também estavam mortas no final do corredor. – Olha isso aqui – A perito puxava um objeto debaixo da estante e segurava dependurado, chamando o policial para ver. O policial se aproximou do celular de Catarina. A tela estava quebrada e piscava indo e voltando entre alguns aplicativos. Por um momento foi possível ver uma página da internet que estava aberta no aparelho. O policial forçou a vista para ler.

    Sonhar com Corvo significa que você irá ajudar ou será ajudada por alguém. Quanto mais alto o grasnado do pássaro, maior é a urgência da situação. Em outros casos….(o resto da tela estava ilegível).

    – Corvo? A perito de de ombros. O policial então deu alguns passos. Se conteve antes de sair pela porta, virou em direção a perito. – Será que demora? – Demora sim, isso aqui está uma bagunça. Temos esses dois estranhos, segundo a vizinha. É bom catalogar tudinho. – Ah, tá bem. É que eu preciso passar tudo para o sistema. E meu turno acaba daqui meia hora. – Melhor avisar sua mulher que hoje você vai se atrasar.

    2018-07-18 11:00:19

    July 18, 2018
  • Lloyd Hoyt

    Trabalhei por quase uma década em uma agência da qual você jamais ouviu falar. Uma agência especial. Uma agência de experiências. Experiências incomuns para pessoas super-ricas. O que fazíamos? Bem, são muitas as histórias que posso contar. Hoje eu quero falar de um dos nossos clientes, o Sr Lloyd Hoyt.

    Quando Lloyd nasceu já tinha em seu nome cinco contas bancárias em cinco diferentes paraísos fiscais. Em cada uma das contas uma soma infinita de dinheiro. Teve uma infância esquisita em um internato que mais parecia uma seita. Aos 16 anos de idade, assumiu uma subsidiária da Hoyt, companhia da sua família. Aos 21 assumiu o cargo de CEO do grupo. Aproxima-se dos 40 anos e tem convicção de que viverá pelo menos 120.

    Como definir Lloyd? Bem, é fácil. Sovina.

    Sob o comando de Lloyd, a empresa Lloyd Hoyt (fundada pelo seu tataravô) expandiu suas operações para quarenta e três países. Especialmente seu braço de transportes e maquinário pesado. Conduzindo sua equipe com mão de ferro, Lloyd dizia com todas as palavras que deveriam sempre pagar menos e exigir mais dos funcionários. Paguem o menos possível! Explorem estes cachorros! Palavras dele. Orgulhava-se por ser conhecido como um explorador do terceiro mundo.

    E por que Lloyd fazia isso? Bem, ele tinha prazeres peculiares.

    Existe um restaurante nos confins gelados da Finlândia que serve a carne de um boi especial. Este boi tem uma vida melhor que a de noventa e nove porcento da população mundial. Palavras do proprietário. Nossos bois recebem um nome quando nascem, e até 25 minutos antes de chegarem no prato dos nossos clientes eles são massageados e beijados ininterruptamente. Então os matamos com um método mais humano que a morte mais humana que existe. É tão incrível que o boi não percebe que morreu. Ele continua a pensar que está vivo. Acreditamos nisso. Acreditamos tanto que o boi continua vivo, que esta é a única carne vegana de todo o planeta. (Gesticulando no ar, exaltado).

    Um bife deste tipo custa US\$ 60,000. “Deste”, não. Estamos falando de William Shawn Hart, nascido no dia 13 de março de 2016. Filho de Leonard Hart e Alexia Mavica Stein. Comidos, respectivamente, por, Bïmayo Brïun (ditador asiático) e Steinv Vitriovich (bilionário russo).

    E para beber? Lloyd sabia exatamente qual era o melhor acompanhamento para este bife. Um bom vinho romano.

    Quando os arqueólogos fizeram a incrível descoberta de milhares de garrafas de vinho romano, alguém em algum lugar os mandou calar. Nenhum estudo pode ser publicado. Os vinhos não iriam para museu coisa alguma. Seriam vendidos a quem pagasse mais.

    Por módicos US\$ 250,000 cada garrafa.

    É claro que análises químicas comprovaram que se tratava de um líquido impróprio para consumo humano. Mas a singularidade daquele produto atraia mesmo assim os curiosos super-ricos que não tinham onde enfiar seus dólares.

    Descobriram que o vinho romano causava dores de cabeça intensas e vômitos. Um dos associados donos do lote achou que o empreendimento não funcionaria. O outro sócio, ficou calmo e rotulou a bebida como uma experiência mística que somente o vinho romano poderia propiciar. E dobrou o preço de cada garrafa.

    É para comer o boi Willian, enquanto degusta vinho romano, que Lloyd Hoyt explora o terceiro mundo. Sem dó e sem remorso.

    Ao chegar no restaurante, Lloyd foi recebido com pompa. Três músicos faziam soar alguma coisa de Handel no ambiente enquanto o maître dirigia Lloyd para a única mesa. A mesa ficava no centro do pequeno salão, iluminada por um spot único de luz.

    Podemos começar? Indagou o maître. Lloyd fez que sim com um gesto de cabeça. Uma tela rolou silenciosa na escuridão em sua frente. A luz brotou nela. Passava um filme com fotos da vida do boi Willian Shawn Hart. Os músicos continuavam.

    O filme terminou com um texto em holandês em que se podia ler — se você soubesse holandês — ”obrigado por me comer”. No fundo uma foto do alegre boi, produzida na manhã daquele mesmo dia. A tela subiu.

    Dois garçons se aproximaram. Um serviu o bife do boi William. O outro serviu o vinho romano.

    O maître se aproximou em seguida e detalhou que ao boi William havia sido mostrada a foto de Lloyd, e que William sorria ao vê-lo. O sommelier veio em seguida, para explicar sobre a origem do vinho de 1300 anos.

    Lloyd Hoyt comeu e bebeu. Alguns minutos depois estava vomitando graciosamente na vomitadeira de ouro que o garçom segurava ao seu lado. Terminava de golfar, e então outro garçom puxava a toalhinha bordada com detalhes em ouro e limpava a beirada da boca dele.

    No outro dia, Lloyd estava no seu escritório. Tinha uma reunião importante, que marcara para exigir de seus diretores um aumento na margem de lucro, nos países para os quais recém haviam expandido as operações.

    Como eu sei disso? O próprio Lloyd me ligou depois desta reunião. Agradeceu pela reserva do restaurante, que eu havia feito. William estava uma delícia. O vinho romano me trouxe vômitos incríveis. Foram suas palavras. Reserve-me outra experiência para o próximo final de semana. Ordenou.

    Havia duas novas opções para Lloyd:

    Explodir Icebergs no Ártico ou Caçar Humanos na Tundra.

    O que você escolheria?

    2018-07-18 10:39:53

    July 18, 2018
  • Stanislaw Lem Sobre Livros E A Vida

    E daí, já que meus livros foram traduzidos para 40 línguas e venderam 27 milhões de exemplares? Eles irão todos desaparecer, já que enxurradas de novos livros estão inundando tudo, arrastando tudo o que foi escrito antes. Hoje, um livro numa livraria não tem nem tempo de pegar um pó. É verdade que atualmente vivemos mais, mas a vida de todas as coisas ao nosso redor ficou bem menor. O mundo está morrendo tão rapidamente que não é mais possível se acostumar a nada. – Stanislaw Lem, em entrevista para a Folha

    2018-06-19 19:02:09

    June 19, 2018
  • Livre Arbitrio Existe

    Para Einstein as descobertas da física quântica deveriam estar erradas porque violavam alguns dos princípios em que ele acreditava (princípios que provavelmente o ajudaram a construir suas teorias).

    [![]]

    Estou conduzindo um experimento que vai provar que Einstein estava

    errado! — 1947: É impossível encontrar um bom sanduíche nessa cidade.

    (xkcd 1206)

    O princípio mais famoso que a física
    quântica jurou de morte foi o da
    localidade. É possível (numerosos experimentos já comprovaram) que
    uma partícula pode influenciar outra a distância sem que qualquer
    informação viaje entre as duas. Isso é comunicação mais rápida que a
    luz, e como nada poderia viajar mais rápido que a luz devido a própria
    natureza do Universo, Einstein dizia que isso era uma \”estranha ação
    fantasmagórica a distância\”. Mas tem outra coisa que a física quântica
    salvou: o livro arbítrio.

    Da previsibilidade à incerteza

    No Universo de Einstein, se você conhecer todas as partículas e todos os
    seus momentos, conseguirá prever o estado seguinte do Universo. Isso
    significa que se você conhecer o estado completo do Universo poderá
    prever as ações de um ser humano, sendo assim, seríamos desprovidos de
    escolha
    . Tudo já \”está escrito\” desde que se deu o Big Bang, o
    início do Universo. A física quântica – que poderia muito acertadamente
    ser chamada de física estranha – tem outro princípio assustador, o
    Princípio da Incerteza de
    Heisenberg
    . Este diz que é impossível conhecer a posição e o
    momento de uma partícula, se sabe-se um, perde-se a segunda informação.
    Ou seja, em um Universo quântico aceitamos o fato de que não temos como
    saber o estado seguinte do Universo porque este não pode ser medido em
    sua totalidade. O importante aqui é ver a distinção entre o Universo de
    Einstein, em que estados anteriores determinam estados futuros, e o
    Universo quântico no qual isso não acontece.

    Prisão aleatória

    Porém, a mera qualidade probabilística da física quântica não prevê
    que temos livre arbítrio
    . Nossos pensamentos dentro de nossas cabeças,
    que antes seriam ordenados e passíveis de previsão, se tornam aleatórios
    e impossíveis de prever, contudo, permanece a nossa falta de controle
    deste processo
    . Seríamos apenas seres geradores de aleatoriedade.
    Autômatos não menos cegos que no Universo determinista clássico.

    Chave mágica

    Mas talvez tenhamos uma chave especial em nosso cérebro, em nossa
    consciência, que nos permita de alguma forma influenciar o processo
    quântico de probabilidades
    . Até hoje se sabe pouco sobre a consciência
    humana e sobre como é o funcionamento do cérebro animal. Tem-se
    sugestões, a maioria baseada em medições das correntes elétricas
    cerebrais, de como são e funcionam as coisas dentro da nossa cabeça. É
    possível que algum misterioso processo mental possa influenciar para
    mais ou para menos uma probabilidade de pensar em A ou B? Se nos
    experimentos os cientistas afirmam que medir uma partícula afeta o
    sistema quântico, porque nosso cérebro não poderia fazer algo nesse
    sentido?

    De galho em galho

    Imaginemos uma árvore de pensamentos. Ao pensar em A, você abre a
    possibilidade de pensar em AB ou AC ou AD. Ao escolher pensar em uma
    dessas possibilidades, digamos, AC, você abre outro nó de escolhas: ACA,
    ACB, ACC. E assim por diante, sempre que um \”galho\”, um caminho da
    árvore é escolhido, novos caminhos vão se abrindo em seguida.

    [![]]

    Exemplo de um simples gráfico de árvore – © gajon.org

    Esta
    ideia de uma árvore de pensamentos pode existir normalmente no Universo
    quântico em que não tenhamos um dispositivo cerebral capaz de interferir
    no processo. Não poderá existir no Universo
    determinista, pois o caminho da árvore já está definido
    , apenas
    percorreríamos o que já estava traçado desde o início dos tempos.
    Voltando ao Universo quântico em que tenhamos algo de especial em nosso
    cérebro animal, algo que nos permita puxar as probabilidades para cá ou
    para lá conforme nossa vontade ou outros fatores: a árvore de
    pensamentos é uma possibilidade
    . Nessa analogia podemos encaixar a
    capacidade única humana de \”imaginar\” o futuro ou coisas que não
    existem. Seria como \”prever\” um nó da árvore de pensamentos que
    está lá ou não está. Então procedemos a executar pensamentos e escolher
    galho após galho tendo como norte um nó imaginado. Talvez daí a
    capacidade tão avançada do Homo Sapiens frente as outras espécies. Não
    que outras espécies não tenham este artefato da árvore de pensamento,
    talvez só não consigam – e não se importem – em imaginar nós futuros e
    fazer esforço mental em busca deles. E sem esse detalhe fundamental,
    vivem a mercê da aleatoriedade.

    Portabilidade

    Então imaginemos uma complexa árvore de pensamentos, por exemplo:
    Relatividade Geral de Einstein. Einstein se pôs a pensar a partir de
    alguns postulados para construir uma árvore de pensamento que
    desenvolveu-se até o ponto da elaboração da Teoria da Relatividade
    Geral. Quantos serão os galhos quebrados na cabeça de Einstein quando
    este encontrava becos sem saída? Então imagine que ele pulava para outro
    pensamento anterior ou vizinho e continuava o seu desenvolvimento a
    partir deste. Ao fim do árduo trabalho de raciocínio, Einstein encontrou
    um caminho frutífero a um pensamento original: a Teoria da Relatividade
    Geral. E agora, de posse do caminho de raciocínio que o fez atravessar
    toda a árvore, ele pode usar a linguagem para informar a outros seres
    humanos como chegar até lá
    . Os outros não precisam elaborar a
    gigantesca árvore de pensamentos que Einstein elaborou em sua cabeça,
    basta que entendam o caminho específico de galhos que levou ao sucesso.
    Então a linguagem seria uma forma de compartilhar caminhos nestas
    árvores de pensamentos. Uns tipos de linguagem seriam mais
    especializados que outros
    na tarefa de percorrer os galhos ou criar
    uma nova árvore. O maior exemplo com certeza é a Matemática, que permite
    uma exploração mental a partir de uma conotação simples. Seria como se
    esta linguagem permitisse ao seu conhecedor explorar mais galhos em
    menos tempo, e melhor: entrar em menos \”galhos sem saída\” do que um
    explorador que não a utilize.

    Teremos escolha?

    Num Universo em que nosso cérebro passa ao largo das estranhezas
    quânticas, não temos qualquer livre arbítrio e o futuro já está
    escrito
    . Num Universo em que nosso cérebro opera no reino quântico,
    o futuro é incerto, mas quanto ao livre arbítrio surgem duas
    possibilidades: A primeira é que não temos uma ferramenta que nos
    permite ativamente alterar as probabilidades. Nesse caso não há livre
    arbítrio
    . A segunda é que temos uma ferramenta capaz de alterar as
    probabilidades em qualquer grau. Neste caso, nosso esforço mental em
    pensar isso ou aquilo tem frutos, e consequentemente, temos livre
    arbítrio
    .

    Para quem quer saber mais

    Looking Glass Universe (em
    inglês)
    Canal no YouTube que explica física quântica de um jeito
    simples (pelo menos o mais simples possível).

    Einstein. Sua Vida, Seu Universo – Walter
    Isaacson

    Biografia do gênio mais icônico da história.

    O Tecido do Cosmo – Brian
    Greene
    Um
    apanhado desde os primórdios da física até os desenvolvimentos das
    Teorias das Cordas. Com metáforas que explicam a relatividade em
    Springfield (sim, Os Simpsons), Greene torna fácil de entender os
    conceitos complicados para leigos.

    50 Ideias de Física Quântica – Joanne
    Baker
    Os
    principais conceitos de Física Quântica mostrados de uma maneira
    extremamente simples. Leitura fácil e agradável.

    2018-06-01 09:58:55

    June 1, 2018
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